Publicado em: 26 de março de 2026
Crise econômica e concorrência com importados levam agricultores a protestar em Ituporanga
Centenas de produtores rurais, comerciantes e lideranças políticas lotaram a Praça Frei Gabriel, em Ituporanga, na manhã desta quinta-feira (26), em um protesto que expõe a gravidade da crise no setor da cebola em Santa Catarina. Os manifestantes denunciam os preços abaixo do custo de produção e pedem controle sobre a importação do produto, que tem agravado a situação dos agricultores locais.
A mobilização reflete um cenário de perdas consecutivas. De acordo com produtores, as dificuldades se arrastam por pelo menos três safras: em 2023, a quebra na produção prejudicou a comercialização; nas duas últimas, mesmo com boa qualidade e volume, os preços ficaram aquém do esperado. O vice-presidente da Aprocessc e integrante da Anace, Jelson Gesser, alerta que o agricultor chegou ao limite financeiro, sem condições de honrar compromissos diante do alto custo de insumos, impostos e mão de obra.
Entre as principais reivindicações está o controle da entrada de cebola importada, especialmente da Argentina, que ocorre durante a safra nacional e pressiona os preços para baixo. Os manifestantes cobram a aplicação de medidas previstas no Decreto 12.866, que permite tarifas ou restrições à importação. O impacto da crise já se espalha pelo comércio regional e levou quase todos os municípios da região a decretarem situação de emergência econômica, afetando também cadeias como leite, arroz e fumo.
Saiba mais:
A crise na produção de cebola em Santa Catarina é um reflexo de vulnerabilidades estruturais do setor. O estado é o maior produtor nacional do vegetal, responsável por mais de 30% do volume colhido no país, e a região do Alto Vale, onde fica Ituporanga, concentra grande parte dessa produção. A safra 2025/2026, inicialmente promissora, viu os preços ao produtor caírem mais de 50% em relação ao custo de produção médio, estimado em R$ 1,20 por quilo, enquanto o valor pago ao agricultor em março girava em torno de R$ 0,60. Historicamente, a importação de cebola da Argentina e do Chile é regulada por um sistema de quotas e tarifas, mas a entrada de grandes volumes fora do período permitido tem sido apontada como um desrespeito a esses acordos. O Decreto 12.866, citado pelos manifestantes, é um instrumento legal que permite ao governo federal aplicar alíquotas elevadas para equilibrar o mercado diante de oscilações bruscas. Além das perdas financeiras, a crise ameaça a permanência de milhares de famílias no campo, comprometendo a economia de dezenas de municípios onde a agricultura familiar é a principal fonte de renda e geração de empregos.