Publicado em: 25 de fevereiro de 2026
Medida simbólica ocorrerá durante festa dos 150 anos da imigração; para Agnaldo Filipe, endurecimento das regras é “desrespeito” e “tiro no pé” do governo da Itália
O prefeito de Pedras Grandes, no sul de Santa Catarina, Agnaldo Filipe, manifestou indignação com as novas regras para obtenção da cidadania italiana aprovadas pelo parlamento do país europeu. Em entrevista, ele classificou a medida como um desrespeito aos ítalo-descendentes e um “tiro no pé” da economia italiana, já que o turismo de raízes movimenta milhões de visitantes todos os anos. O município, que tem cerca de 65% da população formada por descendentes de italianos, é um dos berços da imigração no estado.
Como resposta ao que chama de “exclusão”, Filipe anunciou o rompimento unilateral do pacto de amizade que Pedras Grandes mantinha com a cidade de Belluno, na região do Vêneto – de onde partiram muitos dos colonizadores locais. O ato foi aprovado por unanimidade pela câmara de vereadores e já foi comunicado ao município italiano. Além disso, na festa que celebrará os 150 anos da Colônia Zambuja, em 2027, o prefeito determinou que a bandeira da Itália seja hasteada com uma tarja preta, simbolizando luto pela nova legislação.
O prefeito criticou ainda a visão negativa que, segundo ele, a Itália constrói sobre os descendentes que vivem no exterior. “Falta respeito. O tratamento que dispensam ao ítalo-descendente brasileiro é extremamente negativo, como se não conhecessem a história vitoriosa que construímos aqui”, afirmou. Para Filipe, a amizade entre os povos precisa ser baseada em reciprocidade, e a decisão de romper o pacto é uma resposta à altura da medida legislativa italiana.
Saiba mais:
A nova lei italiana, proposta pelo ministro das Relações Exteriores Antonio Tajani e aprovada sob o governo de Giorgia Meloni, restringe o reconhecimento da cidadania por direito de sangue (ius sanguinis) a descendentes diretos de italianos nascidos no país, exigindo comprovação mais rigorosa de vínculos com a cultura e a língua. Estima-se que mais de 30 milhões de ítalo-descendentes vivam fora da Itália, sendo cerca de 25 milhões apenas no Brasil, Argentina e Estados Unidos. A imigração italiana para o Brasil teve início em 1875, com a chegada de navios ao Espírito Santo e, logo depois, a Santa Catarina – onde a Colônia Zambuja, em Pedras Grandes, foi a primeira . Dados do Consulado Italiano indicam que pedidos de cidadania cresceram 400% na última década, gerando filas e pressionando o sistema judiciário italiano. O turismo de raízes, por outro lado, injetou mais de 200 milhões de euros na economia italiana apenas em 2024, segundo estimativas de associações de descendentes. A medida, que entra em vigor em 2025, já provocou protestos de comunidades ítalo-brasileiras e mobiliza prefeitos do sul do país em busca de alternativas diplomáticas.

30 de setembro de 2025