Publicado em: 26 de fevereiro de 2026
‘Com preço da saca 33% abaixo do custo, agricultores catarinenses enfrentam a pior crise de rentabilidade da década e buscam alternativas para sobreviver.
A colheita do arroz em Santa Catarina, que deve atingir 1,2 milhão de toneladas até março, ocorre em meio a um cenário de profunda crise no setor. Em Turvo, cidade conhecida como a capital catarinense do arroz irrigado, produtores celebram a boa qualidade da safra, mas enfrentam a realidade de preços que não cobrem os custos. “Estamos vendo a mão de obra, tempo e dinheiro sendo investidos diante de um cenário em que não há retorno. Trabalhar o ano inteiro para no final não ganhar um real”, desabafa o agricultor Valdecir Tonetto.
Os números explicam o desespero. Segundo o Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina (SindArroz), o preço médio da saca de 50 quilos está em R$ 50, enquanto o custo de produção é de R$ 75 – uma defasagem de 33%. A situação é agravada pela superoferta no mercado, resultado da safra recorde de 2024/25, que derrubou os preços. Para muitos, como o produtor André Arcaro, que cultiva arroz há 30 anos com o pai, essa é a crise mais grave já vivida: “Do jeito que está, é difícil continuar”.
Diante do cenário, agricultores adotam estratégias de sobrevivência. Alguns optam por armazenar a produção e aguardar uma possível valorização, enquanto outros buscam diversificar com culturas mais rentáveis, como o fumo, que teve alta de 12,85% nas exportações em 2025. “Meu objetivo era continuar só com o arroz, mas a crise me fez mudar de ideia”, explica Tonetto. Já produtores sem alternativa, como Arcaro, que depende exclusivamente do grão por tradição familiar, restam a espera e a esperança de melhora no setor.
Saiba mais:
A crise do arroz em Santa Catarina reflete um cenário nacional e internacional. Enquanto a produção brasileira deve cair 12,4% em 2025/26, segundo a Conab, os estoques elevados – estimados em 2,4 milhões de toneladas – mantêm os preços pressionados. No mercado global, a Índia, maior produtora mundial, acumula safras recordes que adicionaram 30 milhões de toneladas à oferta internacional, deprimindo as cotações e reduzindo a competitividade das exportações brasileiras. Projeções do setor indicam que a recuperação pode demorar: segundo o SindArroz-RS, produtores e indústrias terão que operar com rentabilidade próxima de zero até o segundo semestre de 2027. Em resposta, a Epagri lançou o Projeto SC + Arroz, que busca aumentar a eficiência produtiva por meio de ferramentas tecnológicas e capacitação técnica, além de fortalecer a identidade do arroz catarinense no mercado consumidor.