Seminário relembra os 52 anos da maior tragédia climática do Sul do Brasil

Publicado em: 23 de março de 2026

Seminário relembra os 52 anos da maior tragédia climática do Sul do Brasil

Evento em Tubarão debate prevenção enquanto a região ainda guarda marcas profundas da enchente que soterrou cidades, destruiu a infraestrutura ferroviária e deixou feridas abertas há mais de cinco décadas

A cidade de Tubarão sediará no próximo dia 24 de março o XVII Seminário em memória da enchente de 1974, considerada a maior catástrofe natural já registrada no Sul do Brasil. O encontro, que ocorre a partir das 8h30 no auditório da Amurel, reunirá autoridades, especialistas e a comunidade para discutir prevenção e gestão de desastres, em um momento em que eventos climáticos extremos se tornam cada vez mais frequentes. A programação inclui palestras sobre o histórico das enchentes, sistemas de proteção e as condições climáticas atuais, mantendo viva a necessidade de memória e preparação para evitar que uma tragédia de proporções semelhantes se repita.

Embora os holofotes se voltem para Tubarão, onde o nível do rio atingiu a marca impressionante de 10,22 metros, o horror de 1974 se espalhou por uma vasta área da região Sul catarinense. Cidades como Lauro Müller, Orleans, Pedras Grandes, Laguna, Braço do Norte, Gravatal, São Ludgero, Urussanga, Treze de Maio, Armazém, Rio Fortuna, Siderópolis e Capivari de Baixo foram igualmente devastadas pelas águas que varreram desde a nascente do Rio Tubarão até sua foz, atingindo todos os afluentes pelo caminho. Em Braço do Norte, o vale foi tomado pela força bruta da água, resultando em dezenas de mortes e na destruição completa de pontes e estradas, isolando comunidades inteiras por dias.

Os estragos na infraestrutura foram de tal magnitude que alteraram para sempre a dinâmica econômica da região. A enchente destruiu completamente todo o ramal ferroviário que ligava Tubarão a Orleans e Lauro Müller, um importante corredor logístico que até então era essencial para o escoamento da produção de carvão mineral e de suprimentos entre as cidades. Em Orleans, a usina hidrelétrica — pioneira no sul do estado desde 1937 — teve sua barragem, canal e casa de máquinas inteiramente destruídos pela força das águas. As pontes da ferrovia, a ponte paralela que dava acesso a Lauro Müller e a ponte de concreto que ligava a Urussanga simplesmente desapareceram, deixando as comunidades isoladas por semanas e comprometendo o desenvolvimento econômico da região por anos.

Saiba mais:

A destruição não se limitou às águas do rio que transbordaram. Uma das facetas mais trágicas e menos documentadas da catástrofe foi o desmoronamento de inúmeras barreiras nas encostas da Serra Geral, especialmente nos municípios de Lauro Müller, Orleans e Pedras Grandes. As chuvas torrenciais que antecederam a enchente — com mais de 40 dias de precipitação acumulada — saturaram completamente o solo da região serrana. Quando as trombas d’água se intensificaram nos dias 23 e 24 de março, vastas camadas de terra, rochas e lama se desprenderam das encostas, descendo com violência sobre as comunidades localizadas na base da Serra. Famílias inteiras foram soterradas enquanto dormiam, sem tempo para reagir ou fugir. Em Orleans, os relatos da época mencionam que os prejuízos no interior do município foram incalculáveis: lavouras inteiras desapareceram, rebanhos foram dizimados e casas modestas situadas ao longo das margens dos rios foram simplesmente levadas ou soterradas pelos deslizamentos.

Outra chaga que permanece aberta até hoje é o destino dos desaparecidos. Oficialmente, os números registram 199 mortes, mas não existe uma lista oficial completa com a identificação de todas as vítimas. Muitos corpos foram arrastados pela correnteza violenta do rio e jamais foram encontrados ou identificados. Na época do desastre, a Marinha ficou encarregada dos enterros, mas o trabalho de identificação era precário: eram feitas fotografias e coletadas impressões digitais dos corpos no cemitério, mas essas imagens foram posteriormente perdidas e nunca mais localizadas. O prefeito de Tubarão à época, Irmoto Feuerschuette, iniciou anos depois uma pesquisa para levantar os nomes dos mortos e desaparecidos nos cartórios e repartições policiais da região. Até o momento, foram encontrados cerca de 70 nomes, dos quais 50 são de Tubarão, mas o próprio ex-prefeito admite que o número real de vítimas pode beirar 100 pessoas — ainda assim muito aquém das estimativas não oficiais que circulavam na época.

O Arquivo Público e Histórico Amadio Vettoretti, em Tubarão, guarda atualmente apenas 58 certidões de óbito decorrentes da enchente, um número que contrasta drasticamente com os 199 mortos oficiais e com os relatos de testemunhas que viram corpos sendo sepultados em valas coletivas abertas às pressas no Cemitério Horto dos Ipês. Muitas famílias jamais tiveram a chance de dar um adeus digno a seus entes queridos. Há relatos de pessoas que, na tentativa desesperada de salvar vizinhos ou familiares, foram arrastadas pela correnteza e tiveram seus corpos levados para o mar, nunca mais sendo encontradas. A falta de um registro oficial preciso transformou a dor de centenas de famílias em um luto anônimo e silencioso, que permanece vivo até hoje nas comunidades ribeirinhas de Tubarão, Orleans, Lauro Müller, Pedras Grandes e Braço do Norte. O seminário que ocorre neste mês de março, além de debater prevenção, também cumpre o papel de resgatar essa memória e dar visibilidade a essas histórias que a história oficial não conseguiu registrar completamente.

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