Pai Presente em versos: Cinco poemas que capturam a essência (e a falta) dele

Publicado em: 10 de agosto de 2025

Pai Presente em versos: Cinco poemas que capturam a essência (e a falta) dele

Para celebrar ou lembrar: Drummond, Adélia Prado, Mia Couto e outros transformam em palavras o amor, as ausências e os gestos que definem a figura paterna.

Em vez de presentes convencionais, a poesia oferece um caminho para tocar o cerne das relações paternas. Cinco vozes literárias — Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Adélia Prado, José Luís Peixoto e Mia Couto — revelam o pai real (não o ideal): suas falhas, triunfos mínimos, ausências e marcas singelas. Cada poema organiza memórias desgastadas pelo tempo, transformando detalhes cotidianos — um estojo de óculos, uma mesa vazia, uma casa alaranjada — em testemunhos eternos do afeto que persiste além da distância ou da morte.

OS POEMAS:

MEU PAI

Ferreira Gullar

meu pai foi ao Rio

se tratar de um câncer

(que o mataria) mas

perdeu os óculos

na viagem

quando lhe levei

os óculos novos

comprados na Ótica

Fluminense ele examinou

o estojo com o nome

da loja, dobrou a nota,

guardou-a no bolso

e falou: quero ver agora

qual é o sacana que vai dizer

que eu nunca estive

no Rio de Janeiro

 

DISTINÇÃO

Carlos Drummond de Andrade

O Pai se escreve sempre

com P grande, em letras

de respeito e de tremor,

se é Pai da gente.

E Mãe, com M grande.

O Pai é imenso.

A Mãe, pouco menor.

Com ela, sim, me entendo

bem melhor: Mãe é

muito mais fácil

de enganar.

(Razão, eu sei,

de mais aberto amor.

 

IMPRESSIONISTA

Adélia Prado

Uma ocasião, meu pai

pintou a casa toda

de alaranjado brilhante.

Por muito tempo moramos

numa casa, como ele mesmo

dizia, constantemente

amanhecendo.

 

NA HORA DE PÔR A MESA, ÉRAMOS CINCO

José Luís Peixoto

na hora de pôr a mesa,

éramos cinco: o meu pai,

a minha mãe, as minhas

irmãs e eu. depois,

a minha irmã mais velha

casou-se. depois,

a minha irmã mais nova

casou-se. depois,

o meu pai morreu. hoje,

na hora de pôr a mesa,

somos cinco, menos

a minha irmã mais velha

que está na casa dela,

menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela,

menos o meu pai, menos

a minha mãe viúva.

cada um deles é um lugar

vazio nesta mesa

onde como sozinho.

mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa,

seremos sempre cinco.

enquanto um de nós

estiver vivo, seremos

sempre cinco.

 

O HABITANTE

Mia Couto

Se partiste, não sei.

Porque estás, tanto quanto

sempre estiveste. Essa tua,

tão nossa, presença enche

de sombra a casa como

se criasse, dentro de nós,

uma outra casa.

No silêncio distraído

de uma varanda

que foi o teu único castelo,  ecoam ainda os teus passos

feitos não para caminhar

mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas

nesse tão delicado modo

de morrer como se nos

estivesses ensinando

um outro modo de viver.

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