Publicado em: 22 de fevereiro de 2026
Rafael, de Timbó, no Vale do Itajaí, surpreendeu família e especialistas ao desenvolver uma habilidade linguística rara a partir do hiperfoco, característica comum no transtorno do espectro autista.
Diagnosticado com autismo severo aos dois anos e meio, Rafael tinha um prognóstico inicial que gerava dúvidas até sobre a aquisição da fala. O quadro começou a se transformar quando ele passou a demonstrar um hiperfoco intenso em conteúdos digitais, principalmente vídeos e jogos acessados por tablet. Antes dos quatro anos, já se comunicava fluentemente em inglês, idioma que ninguém em casa dominava, e só depois o português foi incorporado.
Com o tempo, o repertório se ampliou de forma impressionante: aos sete anos, Rafael já demonstrava domínio de nove línguas, incluindo inglês (sua principal forma de expressão), português, espanhol, russo, japonês, alemão, italiano, esperanto e Libras. A mãe, Juli Lanser Mayer, limitou o tempo de tela a duas horas diárias e buscou equilíbrio com atividades como música e escola regular, enquanto profissionais observavam a assimilação acelerada de estruturas linguísticas complexas.
O acompanhamento da neuropsicopedagoga Tatiana Schmidt revelou que o hiperfoco se manifestava de forma direcionada: cada idioma era explorado com profundidade por semanas antes de o interesse migrar para outro. Para o pai, Valcir Mayer, a trajetória do filho abre possibilidades e reforça a importância de respeitar limites e potencialidades, enquanto a família segue priorizando o desenvolvimento integral de Rafael.
Saiba mais:
O fenômeno apresentado por Rafael é conhecido como hiperlinguismo, uma variação da síndrome do savant (ou sabiamente), condição em que pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento exibem habilidades extraordinárias em áreas específicas, como música, arte ou idiomas. Estima-se que cerca de 10% das pessoas com autismo apresentem algum grau de savantismo, mas casos de poliglotismo precoce são extremamente raros. Historicamente, o exemplo mais célebre é o de Kim Peek, inspiração para o filme “Rain Man”, que memorizou mais de 12 mil livros, mas não necessariamente falava vários idiomas. Pesquisas da Universidade de Harvard sugerem que o hiperfoco autista pode estar ligado a uma conectividade neural atípica, permitindo que áreas cerebrais dedicadas à linguagem processem informações de forma mais intensa e rápida. Embora não haja registros oficiais de outra criança brasileira com perfil semelhante, especialistas alertam que cada caso é único e que o estímulo adequado, aliado ao respeito às especificidades do autismo, pode revelar potenciais inexplorados. A história de Rafael, portanto, não apenas desafia prognósticos iniciais, mas também contribui para ampliar o debate sobre as múltiplas formas de aprender e se expressar dentro do espectro autista.