Publicado em: 25 de março de 2026
Na principal região produtora do país, beneficiários do Bolsa Família evitam colheita temporária por medo de perder o auxílio
A expectativa de uma safra histórica de maçã na serra catarinense esbarra em um desafio que se repete há anos: a falta de mão de obra para a colheita manual. A região, que junto com o Rio Grande do Sul responde por 95% da produção nacional, enfrenta dificuldade para contratar trabalhadores. O setor aponta que o principal motivo é o receio dos beneficiários do Bolsa Família de perderem o auxílio ao aceitarem um emprego temporário, que dura cerca de 90 dias e paga salário médio de R$ 3 mil.
Pelas regras do programa, embora exista a Regra de Proteção que permite a permanência por até 12 meses com 50% do benefício em caso de aumento de renda, o valor recebido na safra eleva a média salarial da família. Em muitos casos, isso pode ultrapassar os limites estabelecidos e levar ao cancelamento definitivo do auxílio, desestimulando a formalização temporária. O problema é particularmente agudo na serra catarinense, onde o perfil de pequenos produtores limita a capacidade de recrutamento em regiões mais distantes.
O impasse afeta diretamente a produção nacional, que depende de cerca de 70 mil trabalhadores no pico da colheita entre janeiro e abril. Enquanto isso, um projeto de lei que prevê a exclusão da renda de contratos de safra no cálculo do benefício, apelidado de “PL dos Safristas”, está parado no Congresso aguardando análise final após ter sido aprovado em ambas as Casas em 2025.
Saiba mais:
A fruticultura brasileira enfrenta um gargalo estrutural de mão de obra, especialmente em culturas perenes como maçã, uva e laranja, que exigem manejo manual intensivo. O Brasil chegou a ter cerca de 40 mil hectares de pomares de maçã em 2010, mas a área encolheu para 35 mil hectares atualmente, em grande parte devido à dificuldade de contratação. Enquanto Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram a quase totalidade da produção nacional, o governo federal afirma que o sistema de cálculo do Bolsa Família já considera a média de renda dos últimos 12 meses para evitar exclusões indevidas. No entanto, os produtores argumentam que a burocracia e o risco de demora no retorno ao programa após o fim do contrato seguem como barreiras intransponíveis. Em 2024, representantes do setor chegaram a se reunir com o ministro Wellington Dias em Brasília para tratar do assunto, mas até o momento não houve avanço na regulamentação que garanta segurança jurídica ao trabalhador temporário.