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Conselho de Segurança da ONU se reúne para discutir violência no Haiti, tomado pelas gangues

O líder de gangues Jimmy Cherizier, o “Barbecue”, chefe da aliança formada entre as facções criminosas, pede a renúncia do primeiro-ministro Ariel Henry, que está fora do Haiti. Sem poder retornar ao país, ele desembarcou na noite de terça-feira em Porto Rico vindo do Quênia.

Segundo Cherizier, se a comunidade internacional continuar a apoiar o premiê e Henry se mantiver no cargo, o país caminhará “diretamente para uma guerra civil que levará ao genocídio”.

“Ou o Haiti se torna um paraíso para todos nós, ou um inferno para todos nós”, disse o ex-policial de 46 anos, apelidado de Barbecue, ou “Churrasco”.

O governo declarou estado de emergência no país e um toque de recolher noturno. Escritórios do governo e escolas permanecem fechados.

Nos últimos dias, 15 mil pessoas fugiram de suas casas em Porto Príncipe, segundo a ONU, que começou a distribuir alimentos e produtos de primeira necessidade à população.

Na noite de quarta-feira, forças de segurança armadas fizeram guarda em torno de locais estratégicos em Porto Príncipe. “Não temos autoridades, não temos líderes, não temos ninguém, não temos nada”, disse à AFP Linda Antoine, comerciante da cidade. “É cada um por si.”

A Associação de Hospitais Privados do Haiti lançou um pedido de ajuda, diante de “uma grave escassez de insumos médicos essenciais, combustível e oxigênio” após ataques a vários estabelecimentos.

Grupos armados querem derrubar o primeiro-ministro nomeado pelo presidente Jovenel Moïse pouco antes de seu assassinato, em 2021. Ele deveria ter deixado o cargo no início de fevereiro.

O país, atualmente sem presidente ou parlamento, não tem eleições desde 2016. “Apesar de muitas reuniões, não conseguimos chegar a um consenso entre o governo e os vários atores da oposição, o setor privado, a sociedade civil e as organizações religiosas”, disse o presidente da Guiana, Mohamed Irfaan Ali, que ocupa a presidência rotativa da Comunidade do Caribe (Caricom), na quarta-feira.

Em Washington, a diplomacia norte-americana pede a Ariel Henry que “acelere a transição” para “eleições livres e justas” e exige “concessões no interesse do povo haitiano”. A Casa Branca, entretanto, deixou claro que não espera pela renúncia do premiê.

Devido à violência, crise política e anos de seca, 5,5 milhões de haitianos, quase metade da população, precisam de assistência humanitária. Mas o apelo da ONU por doações – US$ 674 milhões para 2024 – foi apenas 2,5% financiado.

Após meses, o Conselho de Segurança concordou em outubro em criar uma missão multinacional liderada pelo Quênia para enviar 1.000 policiais ao Haiti. Mas sua implantação foi adiada pelo sistema de justiça queniano e falta de financiamento.

Nairóbi e Porto Príncipe assinaram um acordo bilateral na sexta-feira, mas ainda não há data definida para a chegada da missão.

No início de janeiro, o chefe da ONU, Antonio Guterres, disse estar “chocado” com o “nível impressionante” de violência de gangues, com o número de assassinatos mais do que dobrando em 2023, com quase 5.000 pessoas mortas, incluindo 2.700 civis.

Quem é Barbecue?
Jimmy “Barbecue” Chérizier, um ex-policial que gosta de se apresentar como revolucionário, lidera a aliança de gangues “Família G9”, no Haiti. Ele está por trás do aumento da violência dos últimos dias.

Os grupos armados do Haiti, muitas vezes divididos e que lutam para expandir seus respectivos territórios, anunciaram na semana passada a criação de uma aliança para lutar contra o governo.

Desde então, atacaram locais estratégicos como aeroportos, academias de polícia e presídios, de onde fugiram milhares de detidos.

O líder das gangues tem um histórico de ações violentas. Em 2022, à frente da aliança G9, bloqueou durante meses o principal terminal petrolífero do país, paralisando a distribuição de combustíveis e mergulhando o Haiti ainda mais no caos.

O episódio gerou pedidos do governo pela criação de uma força multinacional para ajudar a sobrecarregada polícia do Haiti, uma missão que ainda não foi concretizada.

Barbecue foi o primeiro a aparecer em outubro de 2022 na lista do novo regime de sanções da ONU contra as gangues haitianas (proibição de viagens, congelamento de bens, embargo de armas seletivo).

Mas, apesar de tudo, “continua cometendo atos que ameaçam a paz, a segurança e a estabilidade do Haiti”, comentou em setembro o comitê de especialistas da ONU encarregado de monitorar as sanções.

O relatório da organização detalha as atividades criminosas das várias gangues que controlam áreas inteiras do país, especialmente a capital.

Para a “Família G9” e seus mais de 1.000 membros, em sua maioria ex-policiais, ex-seguranças e crianças de rua, a lista é longa: assassinatos, roubos, extorsões, estupros, assassinatos seletivos, tráfico de drogas, sequestros, incêndios criminosos, entre outros.

Massacre de Saline
Estes especialistas apontam ainda o envolvimento de Barbecue no “massacre de Saline”, que deixou 71 mortos em poucos dias, em um bairro de Porto Príncipe, em 2018.

As gangues, às vezes usadas pelas autoridades para reprimir protestos em bairros populares, “retiraram as vítimas, incluindo crianças, de suas casas para queimá-las, desmembrá-las e dar como alimento aos animais”, descreveu o Departamento do Tesouro dos EUA no final de 2020, quando decidiu sancionar Chérizier.

Segundo a mesma fonte, o líder da quadrilha recebeu o apoio de dois funcionários do alto escalão do governo do presidente Jovenel Moïse, assassinado em julho de 2021 em Porto Príncipe.

Barbecue, que posta com frequência vídeos nas redes sociais, rejeita as acusações. “Não sou um criminoso, nunca serei um criminoso”, declarou em 2021 durante uma entrevista ao canal Al Jazeera, dizendo que luta “por outra sociedade”.

Questionado por uma jornalista do Le Figaro de onde vinha o apelido “Barbecue” (Churrasco), ele respondeu que vendia carne grelhada na calçada quando era adolescente. Mas, na realidade, Chérizier teria o costume de queimar suas vítimas.

Fonte: RFI