Publicado em: 11 de março de 2026
Prática tradicional de pesca com golfinhos entra para o Livro de Saberes do Iphan em decisão histórica celebrada por pescadores e autoridades catarinenses


A tradicional pesca cooperativa entre pescadores e botos em Laguna, no litoral sul de Santa Catarina, tornou-se patrimônio cultural do Brasil. Em reunião realizada na tarde desta quarta-feira, 11, no Rio de Janeiro, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou por unanimidade o registro da prática no Livro de Saberes. A decisão foi acompanhada em tempo real no Cine Mussi, em Laguna, onde pescadores e autoridades celebraram a conquista com aplausos.
O reconhecimento federal coroa um processo iniciado em 2017 e ampliado em 2019, quando uma associação de Imbé (RS) solicitou o mesmo registro, levando à unificação das iniciativas. “Laguna é protagonista neste processo”, comemorou Welligton Linhares, um dos idealizadores do pedido. Segundo o Iphan, a pesca atendeu aos requisitos por ser um saber-fazer tradicional com profunda referência à identidade, à ação e à memória dos grupos envolvidos.
A cidade já acumulava conquistas relacionadas à preservação dos botos-pescadores. Desde 1993, as lagoas da região são santuário ecológico da espécie. Em 2016, Laguna recebeu o título de Capital Nacional do Boto-Pescador, e no ano seguinte a pesca foi registrada como patrimônio imaterial catarinense, com a criação do Dia Estadual da Preservação do Boto-Pescador, celebrado em 25 de maio. Para pescadores como Rafael Schmitz, que atua desde os oito anos, o registro federal traz esperança: “Acredito que essa conquista ajude na preservação, com mais ênfase em fiscalização e conscientização.”
Saiba mais:
A interação entre botos e pescadores em Laguna é uma das poucas do mundo em que golfinhos selvagens cooperam voluntariamente com humanos. Os botos (Tursiops truncatus) auxiliam os pescadores conduzindo cardumes de tainhas em direção à costa e sinalizando o momento exato de lançar as redes. Em contrapartida, os golfinhos beneficiam-se ao capturar os peixes que se desgarram durante o processo. Estudos da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) indicam que essa tradição, transmitida entre gerações há mais de 150 anos, envolve cerca de 30 pescadores e uma comunidade estável de aproximadamente 20 botos. Com o registro federal, o Iphan reconhece não apenas o valor cultural da prática, mas também a urgência em protegê-la: a poluição, o tráfego de embarcações e a redução dos cardumes ameaçam tanto os mamíferos quanto a continuidade dessa cooperação única no país.