Publicado em: 12 de abril de 2026
Fim das negociações em Islamabad trava acordo e reacende temor sobre o Estreito de Ormuz, elevando custos logísticos para as exportações brasileiras
As negociações entre Estados Unidos e Irã terminaram sem acordo na madrugada deste domingo (12), após mais de 21 horas de conversas em Islamabad, capital do Paquistão. O vice-presidente americano, JD Vance, afirmou que os iranianos se recusaram a aceitar os termos considerados “bastante flexíveis” por Washington, que exigia o abandono definitivo do programa de armas nucleares. Do lado iraniano, a agência de notícias Tasnim atribuiu o fracasso às exigências “excessivas” dos EUA, classificando a postura americana como “excesso de zelo e ambições”.
Entre os principais entraves estão o programa nuclear iraniano e o controle do Estreito de Ormuz, por onde escoa cerca de 20% do petróleo global. Autoridades do Irã afirmaram que o país não pretende abrir mão de sua capacidade nuclear nem alterar sua posição no estreito enquanto não houver um acordo considerado “razoável”. Sem consenso, o cessar-fogo de duas semanas entre as potências fica ameaçado, elevando novamente a tensão geopolítica.
Para o Brasil, distante mais de 10 mil quilômetros de Teerã, a continuidade do impasse já produziu efeitos concretos. O conflito elevou o barril de petróleo Brent de cerca de US$ 70, antes de 28 de fevereiro, para picos próximos a US$ 120, pressionando os preços dos combustíveis no mercado interno.
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No Brasil, o impacto nos bolsos e no campo já é sentido. Em março, a inflação oficial (IPCA) acelerou para 0,88%, puxada pelo grupo Transportes, que subiu 1,64% com a disparada dos combustíveis: apenas em março, o diesel acumulou alta de 13,9% e a gasolina, de 4,59%, segundo o IBGE. Para conter o impacto, o governo Lula anunciou um pacote de R$ 30 bilhões, que inclui subvenção de até R$ 1,20 por litro para a importação de diesel, além da isenção de PIS/Cofins sobre o combustível. Apesar da pressão global, o Brasil figurou entre os países que menos repassaram a alta ao consumidor, com a gasolina subindo 7,6% (ante média mundial de 23,5%) e o diesel, 23,5% no acumulado desde fevereiro (ante 50,8% no mundo). No campo, a guerra afeta diretamente o agronegócio. O Oriente Médio é o destino de 30% das exportações brasileiras de carne de frango e de 10% da carne bovina, volume que chegou a 250 mil toneladas em 2025, com o Irã entre os principais compradores. Em março, primeiro mês de conflito, as vendas brasileiras para os 15 países da região caíram 26% na comparação anual, recuando de US$ 1,2 bilhão para US$ 882 milhões, com destaque para a queda de 59% na carne suína e de 22% no frango. O bloqueio do Estreito de Ormuz elevou fretes e seguros, inviabilizando parte dos embarques. Para Santa Catarina, maior exportador nacional de carne suína e de frango, a situação é crítica, pois o estado destina parte expressiva de sua produção ao mercado halal. A alternativa encontrada foi o fechamento de um acordo com a Turquia para armazenar e redirecionar mercadorias, cujos efeitos começarão a aparecer na balança comercial de abril.