Publicado em: 25 de março de 2026
Produtores do Rio Grande do Sul relatam desabastecimento há mais de dez dias; ANP nega problemas, mas entidades do agro apontam especulação e cortes no fornecimento.
Desde o início de setembro, produtores rurais do Rio Grande do Sul enfrentam dificuldades para receber diesel de transportadores revendedores-retalhistas (TRRs). A Federação da Agricultura do Estado (Farsul) informou que, a partir do dia 5, o carregamento do combustível por esses intermediários foi totalmente interrompido em algumas regiões, enquanto a Federação das Associações de Arrozeiros (Federarroz) relata aumentos expressivos de preço e cancelamento de vendas por falta de estoque.
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) sustenta que a situação está sob controle e que os estoques são suficientes. Em nota, o órgão citou apuração com os principais fornecedores do estado, e o diretor-geral, Artur Watt, afirmou que não há falta física de produtos. Apesar disso, a Farsul reitera que o suprimento não foi normalizado e que a preocupação persiste, especialmente em pleno período de colheita do arroz e da soja.
O problema se espalha por outros estados. No Paraná, a federação da agricultura local já recebeu relatos de falta de diesel em entrepostos do interior. Em Goiás, o preço do litro chegou a R$ 8,70 nesta semana, muito acima da média de R$ 5,94 registrada pela ANP no início do mês. Para a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), a ameaça de interrupção do abastecimento é intempestiva e coloca em risco a produtividade e a segurança alimentar do país.
Saiba mais:
A crise evidencia a alta dependência do agronegócio brasileiro por combustíveis fósseis. Dados do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep mostram que 73% da energia usada no campo vêm do diesel, que movimenta colheitadeiras, tratores e grande parte da logística de escoamento. Apesar de o país ser um dos maiores produtores de petróleo, ainda importa cerca de 30% do diesel consumido, segundo a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Em meio à instabilidade no Oriente Médio, que elevou os preços internacionais, o governo anunciou isenção de PIS e Cofins e uma subvenção à importação, mas especialistas avaliam que as medidas não resolvem a questão do abastecimento físico. Paralelamente, 43 entidades do setor pediram ao governo a elevação imediata da mistura de biodiesel no diesel de 15% (B15) para 17% (B17), medida que poderia reduzir a vulnerabilidade externa e ampliar o uso de energia renovável nacional. A Petrobras, procurada, afirmou que não houve mudança nas entregas de suas refinarias, mas o vice-presidente da Ubrabio declarou que a estatal cortou em até 30% os volumes previstos para distribuidoras no Polo de Araucária (PR) em abril.