Rio e Niterói anunciam fechamento de comércio não essencial para combater a covid-19

RIO – As prefeituras do Rio e de Niterói anunciaram em conjunto, nesta segunda-feira, 22, que as cidades fecharão todos os serviços não essenciais por dez dias, a partir de 26 de março até 4 de abril. O novo decreto, orientado pelos comitês científicos desses dois municípios, tem como objetivo frear o avanço da covid-19. A capital e Niterói têm 42% da população do Estado.

O decreto a ser publicado pelos dois municípios determina o fechamento de bares, restaurantes, academias, shoppings, clubes, boates e salões de beleza, quiosques e parques de diversão, além de todos os comércios que não sejam essenciais. Continuam permitidos supermercados, farmácias, transportes, serviços médicos, serviços funerários, pet shop, lojas de material de construção e comércio atacadista.

Mais cedo, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), externou insatisfação que vinha alimentando nos últimos dias contra o governador em exercício, Cláudio Castro (PSC). Ao compartilhar no Twitter uma reportagem na qual Castro afirma que municípios ficarão proibidos de fechar bares e restaurantes durante o “superferiado”, Paes foi irônico e alegou que ele não entendeu o objetivo das medidas de isolamento para combate à covid-19. “CastroFolia! A micareta do governador! Definitivamente ele não entendeu nada do objetivo de certas medidas.”

O Estado determinou que vai adotar um feriado de dez dias a partir da próxima sexta, 26. No entanto, Castro não quer novas restrições de circulação com as de prefeitos da região metropolitana como Rio e Niterói. A discordância entre Castro e Paes já vinha crescendo nos últimos dias. Em reunião neste domingo, eles chegaram a conversar em tom ríspido, dada a dificuldade de se buscar um consenso.

Em entrevista ao Estadão publicada na última sexta-feira, Castro deu sinais de que alinhamento com o bolsonarismo. Ele tenta se equilibrar entre um discurso de que segue “a técnica” e a lealdade ao presidente Jair Bolsonaro, crítico ferrenho das medidas de isolamento.

As medidas mais restritivas anunciadas por Paes, e de Niterói, Axel Grael, para o combate à covid-19 foram bem recebidas por especialistas. Já o governador pretendia manter fechadas praias e escolas, mas permitir o funcionamento de comércio, bares, restaurantes e shoppings em horários reduzidos e com público limitado. Para epidemiologistas, essa é a pior solução, porque estimula as aglomerações e a circulação do vírus. Ainda assim, dizem os especialistas, dez dias de fechamento total é pouco. O mínimo considerado ideal é de 14 dias, para que a lotação dos hospitais comece a baixar. Paes e Axel pretendem examinar os efeitos da parada total no fim do feriadão, para avaliar o que farão.

“Feriadão com tudo aberto não ajuda em nada; só concentra os casos positivos dentro de casa no fim de semana em família”, garantiu o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unesp. “Ou fecha tudo por três a quatro semanas ou não adianta a gambiarra.”

O infectologista Fernando Bozza manifestou-se em linha semelhante. “O mínimo ideal é duas semanas, mas dez dias é melhor do que nada”, afirmou. “Enquanto o processo de vacinação não for acelerado, não tem jeito, tem de restringir a circulação mesmo.”

O epidemiologista Daniel Villela, da Fiocruz, concorda com os colegas. “A situação do momento requer medidas mais enérgicas. Medidas de supressão e bloqueio da transmissão, uma combinação de medidas de restrição de atividades não essenciais”, afirmou. “Essas medidas têm que ser sustentadas por um tempo. E com auxílio para setores afetados, como o auxílio emergencial e para pequenos negócios. O ideal é que as ações sejam coordenadas entre esferas de governo”, defende.

Reportagem: Caio Sartori, Fabio Grellet e Roberta Jansen/ESTADÃO

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