Refugiada diz ter sido presa injustamente por “estelionato sentimental”

Refugiada chegou ao Brasil em 2014. Sua vida nunca foi fácil. Desde pequena, no Togo, país africano onde nasceu, trabalhou como vendedora ambulante – ofício que jamais abandonou. Em São Paulo, cidade em que vive, ela tira o seu sustento vendendo roupas na região do Brás, das 10h às 19h.

Uma rotina pontual que foi interrompida em dezembro de 2020, quando a Polícia Civil invadiu a quitinete de Falilatou. A imigrante não estava em casa nem sabia que estava sendo procurada no âmbito da Operação Anteros, deflagrada pela Polícia Civil a fim de prender uma quadrilha que, segundo o Ministério Público, “praticava verdadeiro estelionato sentimental”.

Conhecida como uma das maiores operações policiais do país, a Anteros desbaratou um esquema de fraudes on-line, em que criminosos utilizavam perfis falsos em sites de relacionamento e nas redes sociais para aplicar golpes. De acordo com o MP, aproximadamente 2 mil pessoas foram prejudicadas pela organização, que lucrou cerca de R$ 100 milhões com as investidas. Entre os 115 investigados presos, estava Falilatou.

Para a polícia, no esquema de estelionato, extorsão e lavagem de dinheiro, a refugiada atuava como “correntista”. Segundo a acusação, ela movimentou em cinco contas bancárias, de três bancos diferentes, R$ 1.035.000 – montante que pertenceria à organização criminosa. A prova apresentada foi uma assinatura com o nome da africana em letra cursiva, no formulário da abertura de conta. Acontece que Falilatou é analfabeta.

Aos seus advogados, a vendedora ambulante alega que tem uma única conta bancária desde que chegou ao Brasil. A assinatura para abertura dessa conta é um rabisco, e, portanto, diverge das provas apresentadas pelo Ministério Público.

“Fico muito confortável em dizer que a Falilatou é inocente, por causa da movimentação financeira. O MP aponta que os correntistas ganhavam de 3% a 7% do valor que girava na conta. Se ela lucrava com aquele dinheiro, já teria trazido o filho para o Brasil há muito tempo, e teria uma condição de vida melhor do que a minha”, afirma Gabriel Silva, um dos advogados que está defendendo a refugiada gratuitamente.

Ao Metrópoles, o missionário e padre Mossi Kuami Anoumou, irmão da imigrante, contou que Falilatou tinha muita dificuldade em entender o português. “Eu fazia tudo para a minha irmã. Inclusive, eu que a ajudei com suas documentações na Polícia Federal. Muitas vezes nós brigávamos, porque ela, quando precisava de ajuda, entregava os documentos nas mãos de outras pessoas. Acredito que minha irmã é inocente. Enganaram ela!”, disse o religioso, que vive em Salvador.

A surpresa da prisão

Quando Falilatou retornou para casa, a polícia já havia ido embora. Sem saber o que estava acontecendo, ligou para o seu irmão. Mossi a orientou a procurar a delegacia e fazer um boletim de ocorrência. Ao chegar à unidade policial, acompanhada da amiga Chantal Dagan, já havia uma ordem de prisão expedida contra ela. A vendedora ambulante foi levada para a Penitenciária Feminina da Capital – Carandiru, em SP.

De acordo com Chantal, a amiga saiu de uma sala da delegacia dizendo várias vezes: “Eu tô presa”. Até hoje, quatro meses depois do ocorrido, ela ainda tenta entender o que aconteceu.

“A Falilatou era minha companheira de trabalho. A gente ficava todo dia com o sol quente nas costas tentando vender nossa mercadoria. Nós estávamos lá mesmo quando chovia. Me diz: quem com esse tanto de dinheiro se colocaria numa situação dessa, tendo que correr do rapa [fiscais da prefeitura] quase sempre?”, assinala Chantal Dagan.

Desde a prisão da vendedora, o filho de Falilatou não tem recebido os recursos enviados mensalmente pela mãe. Chantal conta que o menino parou de estudar e, além disso, o aluguel do quitinete em que a refugiada mora se acumula desde de janeiro, a dívida ultrapassa R$ 3 mil.

“Eu ia ao banco com ela. Em uma cirurgia em setembro do ano passado, eu a acompanhei para resolver as burocracias no hospital. Falilatou não tinha muito conhecimento de nada. Não sabia escrever. Como assinou aquele papel?”, indaga Chantal.

Em trâmite na comarca de Martinópolis, o processo derivado da Operação Anteros já acumula milhares de páginas. Nenhum pedido de liberdade provisória apresentado pelos advogados de Falilatou foi respondido. Questionado sobre o assunto, o Tribunal de Justiça de SP não havia se manifestado até a publicação desta reportagem.

O MPSP afirmou que “todos os pedidos de revogação de prisão preventiva estão sendo analisados casuisticamente”. A Polícia Civil de Presidente Prudente, responsável pela operação, pontuou que realizou a coleta de diversas provas durante o trabalho investigativo, como depoimento de testemunhas e vítimas, análise de câmeras de monitoramento, buscas nos bancos de dados da Polícia Civil e quebra de sigilo bancário de possíveis envolvidos.

Leandro Barbosa

Foto: Divulgação Metrópoles

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