Pecado ecológico, participação das mulheres e padres casados

Depois de três semanas de intensos debates na Cidade do Vaticano, os padres sinodais apresentaram neste sábado ao papa o relatório final do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia. Ao longo de 120 parágrafos, divididos em cinco capítulos, as propostas vão desde a conceituação do que é pecado ecológico até a maior participação das mulheres na liturgia católica. E, talvez o mais polêmico item, a proposta para que, em casos específicos e de acordo com a necessidade, homens casados possam ser ordenados padres, dispensados portanto do celibato.

Esta proposta está no parágrafo 111 do documento. Os bispos lembram que muitas comunidades do território amazônico “têm enormes dificuldades de acesso à Eucaristia”, ficando meses ou até “vários anos” sem a presença de um sacerdote. Para diminuir este problema, os padres sinodais pedem ao papa que autorize a ordenação de sacerdotes em a exigência do celibato clerical – desde que, frisam, sejam “homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiteriado”. Estes padres, prossegue o texto, teriam “uma família legitimamente constituída e estável”.

Todos os parágrafos constantes do documento final precisaram ser aprovados, em assembleia realizada na tarde deste sábado, 26, por pelo menos dois terços dos padres sinodais – aqueles participantes com direito a voto. No encontro final, estavam presentes 181 desses religiosos. De todos os itens, o 111 foi justamente o que teve menor índice de aprovação – foram 41 votos contrários. “São questões complexas. Fizemos avanços e o processo está em andamento. Precisamos refletir, ouvir, mas os processos estão indo adiante”, afirmou aos jornalistas o cardeal Michael Czerny, sub-secretário da Seção de Migrantes e Refugiados do Dicastério pelo Serviço de Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano e secretário especial do Sínodo.

Outro ponto explicitado no documento foi o pedido para que seja criado o “pecado ecológico”. De acordo com os bispos, o desrespeito à natureza deve ser visto como pecado porque seria uma afronta a Deus e uma agressão à sua criação. Essa ideia já estava presente, embora não de forma tão incisiva, na encíclica Laudato Si’, publicada pelo papa Francisco em 2015. “Nenhum católico pode viver em comunhão com a Igreja sem escutar o grito da Terra. (Desrespeitar a natureza) é um pecado, é um pecado ecológico”, disse o bispo de Izirzada, no Peru, David Martinez de Aguirre Guinea.

A maior participação feminina em celebrações litúrgicas e em papeis dentro da Igreja foi abordado em cinco parágrafos do documento, sob o título “presenças e a vez da mulher”. “A sabedoria dos povos ancestrais afirma que a mãe terra tem um rosto feminino. No mundo indígena e ocidental, as mulheres são aquelas que trabalham em múltiplas facetas, na instrução dos filhos na transmissão da fé e do Evangelho, são testemunhas e presença responsável na promoção humana, por isso se pede que a voz das mulheres seja ouvida, que elas sejam consultadas e participem das decisões e, assim, possam contribuir com sua sensibilidade à sinodalidade eclesial”, diz o documento. O item 103 afirma que muitas consultas solictiam “o diaconato permanente para as mulheres”.

Na hierarquia da Igreja, o diácono é um grau abaixo do padre. Tem participação ativa na comunidade mas não pode celebrar missas nem ouvir confissões, por exemplo. Dentre os parágrafos do documento final, é mais um com forte rejeição – teve 30 votos contrários, a segunda colocação por este critério.

Trâmites

As discussões que constam do documento final do sínodo não significam necessariamente uma mudança nos horizontes da Igreja. Trata-se de um avanço no debate. Isto porque a ideia de um sínodo é justamente essa: o papa ouvir o que os bispos do mundo pensam sobre determinados assuntos. Assim, o relatório não tem viés executivo.

É praxe que, algum tempo depois de um sínodo, o papa redija e publique uma Exortação Apostólica, na qual ele pode acatar os pontos abordados pelos bispos e, na maioria dos casos, pedir mais estudos sobre os temas, delegando isso para órgãos competentes dentro do Vaticano. Segundo afirmou Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério da Comunicação, Francisco “não garante” que vá fazer a exortação. “Ele lembrou que não é algo obrigatório, mas disse que vai tentar fazer, sim, até o fim deste ano”, comentou ele.

Por Edison Veiga, especial para o Estado

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