Padre tenta recuperar imagens sacras furtadas em Ritápolis, no Campo das Vertentes

Uma cruzada movida pela devoção popular, em defesa do patrimônio cultural e com pedido de justiça. Em Ritápolis, na região do Campo das Vertentes, em Minas, começa uma ação para resgatar duas imagens sacras, do século 18, furtadas há 22 anos do Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia. À frente, está o pároco, reitor Adriano Tércio Melo de Oliveira, que entrou com uma representação no Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) na esperança de trazer de volta as imagens de São Sebastião e São Manuel.

“Por que essas imagens ainda não voltaram para Ritápolis?”, pergunta o padre Adriano, que tem pela frente não apenas uma questão judicial como um misterioso quebra-cabeça faltando peças. Tudo começou, segundo ele, em 27 de março de 1998, quando foram levados diversos objetos de devoção da igreja, entre eles a padroeira Santa Rita e São José. Em operação da Polícia Civil de Minas Gerais, as duas imagens foram encontradas em Campinas (SP), mas as de São Sebastião e São Manuel não voltaram ao altar. No livro de tombo da paróquia, padre Adriano encontrou registrado que ambas ficaram em Campinas, “porque a compradora das mesmas se encontrava viajando”.

As imagens de São Sebastião e São Manuel foram furtadas há 22 anos em Ritápolis e até hoje não foram resgatadas© Santuário DiocesanoSanta rita de cássia/divulgação As imagens de São Sebastião e São Manuel foram furtadas há 22 anos em Ritápolis e até hoje não foram resgatadas

Disposto a trazer de volta as imagens do santuário, vinculado à Diocese de São João del-Rei, padre Adriano conta uma história conhecida na cidade, antigamente chamada Santa Rita do Rio Abaixo: a imagem de São Sebastião teria pertencido à capela dedicada ao santo, na qual fora batizado o herói da Inconfidência Mineira (1788-1789) Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, nascido na Fazenda do Pombal. Ele mostra o livro de inventário da paróquia, já na cor sépia do tempo, no qual o padre Crispiniano, em 1860, registrou a existência das duas imagens barrocas desaparecidas com altura de “quatro palmos”.

A iniciativa do pároco reitor de Ritápolis já teve resposta no MPMG. O promotor de Justiça da comarca de São João del-Rei, Antônio Pedro da Silva Melo, informou que ajuizou ação para investigação do caso, requisitando às delegacias de Ritápolis e de Campinas os inquéritos da época sobre o furto do acervo e a operação de apreensão na cidade paulista. Ele citou exemplos positivos de retorno de imagens desaparecidas de templos centenários, como a de Nossa Senhora do Rosário, de Prados, também no Campo das Vertentes, do portal da igreja do Matozinhos, em São João del-Rei, e dos chamados anjos de Santa Luzia, do Santuário Arquidiocesano de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que, há 17 anos, foram retirados de um leilão no Rio de Janeiro (RJ) e ficaram como símbolo da história do resgate de peças sacras no país.

© Santuário DiocesanoSanta rita de cássia/divulgação

“INESCRUPULOSOS” No livro de inventário do Santuário Arquidiocesano Santa Rita de Cássia, padre Adriano, há dois anos pároco reitor, encontrou a descrição minuciosa do furto das imagens de Ritápolis: “Numa sexta-feira, dia 27 de março de mil novecentos e noventa e oito, a imagem de nossa padroeira, Santa Rita de Cássia, foi furtada por ladrões inescrupulosos, deixando um vazio não só no trono da mesma, mas um vazio muito maior no coração dos devotos dessa venerada imagem. Junto com essa imagem, levaram também as imagens de São José, São Sebastião e São Manuel”.

Após prisão da quadrilha responsável pelo furto, as peças foram levadas para São João del-Rei, passaram por perícia e retornaram a Ritápolis em 10 de maio de 1998, Dia das Mães, conforme anotado no livro da paróquia. E há o registro de que “as imagens de São Sebastião e São Manuel ficaram em Campinas, porque a compradora das mesmas encontrava-se viajando”.

No inventário feito em 1860, o padre Crispiniano registrou  duas imagens do século 18 no acervo da paróquiaNo inventário feito em 1860, o padre Crispiniano registrou duas imagens do século 18 no acervo da paróquia

MINAS PROCURA Conforme o último levantamento do Ministério Público de Minas Gerais, por meio da Coordenadoria das Promotorias de Justiça do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais (CPPC), que tem como titular a promotora de Justiça Giselle Ribeiro de Oliveira, há, do patrimônio mineiro, 742 peças desaparecidas e 539 judicializadas. Em 17 anos da campanha, foram apreendidas 419, incluindo imagens, castiçais, sinos, partes de altares e outros bens.

CASOS DE É E JUSTIÇA

© Beto Novaes/EM/D.A Press

2003

Em 12 de agosto, como resultado de ação ajuizada pela Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia e com liminar concedida pelo então juiz de Direito da comarca, Jair Santana, retornaram a Minas três peças sacras do século 18, pertencentes ao Santuário Arquidiocesano Santa Luzia, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O pequeno tesouro, vendido nos anos 1950, fora retirado de um leilão no Rio de Janeiro (RJ) e já tinha promessa de compra por um banco holandês.

2018

Em 15 de junho, o Ministério Público de Minas Gerais, por meio da Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico, fez a devolução da imagem de Nossa Senhora do Rosário à capela de mesmo nome, em Prados, na região do Campo das Vertentes. A imagem, subtraída da capela em 1980, foi identificada em site de leilão de objetos de arte. Realizada a perícia e constatada a autenticidade da imagem, a pessoa que tinha a posse da imagem celebrou termo de compromisso e devolveu o objeto de fé de maneira espontânea.

2019

Em 18 de abril, uma longa história termina em São João del-Rei, no Campo das Vertentes, com a apresentação da portada em pedra-sabão, com mais de 4 toneladas, que pertenceu à antiga Igreja Bom Jesus de Matosinhos, joia do século 18, demolida em 1970. Depois de retornar em março, de Campinas (SP), onde ficou por décadas ornamentando uma fazenda e foi localizada em uma revista de decoração, a peça (moldura da porta principal de igreja) foi integrada ao acervo do Museu de Arte Sacra de São João del-Rei.

PARA DENUNCIAR

Quem tiver informações sobre peças desaparecidas e quiser fazer denúncias pode acionar:

Ministério Público de Minas Gerais

Email: cppc@mpmg.mp.br, telefone

(31) 3250-4620. Pode também enviar correspondência para Rua Timbiras, 2.941 – Bairro Barro Preto, Belo Horizonte – MG, CEP 30140-062. Também está disponível o blog patrimoniocultural. blog.br.mpmg

Iphan

Para obter ou dar informações, basta acessar o site www.iphan.gov.br e verificar o banco de dados de peças desaparecidas. Denúncias anônimas podem ser feitas pelos telefones (61) 2024-6342, 2024-6355 e 2024-6370, do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização (Depam) e pelo e-mail depam@iphan.gov.br

Iepha-MG

Pelo site www.iepha.mg.gov.br ou pelo telefone (31) 3235-2812 ou 3235-2813

Esta informação é da EM.com.br/Gustavo Werneck

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