O inferno são os outros? Confira análise do secretário-geral da COBAP, Luiz Legnani

Minha análise após a leitura do Artigo interessante em o “Portal do Envelhecimento”, O Inferno São Os Outros? baseado na peça “Entre Quatro Paredes”, de Jean-Paul Sartre, escrita em 1944, nos coloca no lugar dos idosos, das mulheres e das pessoas vulneráveis durante o isolamento social por conta da pandemia COVID-19.  Os dados nos mostram o aumento da violência contra essas pessoas durante este período.  Será que também estamos à mercê daqueles pequenos incômodos que causa a convivência tão intensa com o outro e que não somos, de alguma forma, dependentes dele?

Sartre, em sua peça de teatro existencialista “Entre Quatro Paredes”, de 1944, imagina o que, segundo ele, poderia ser o interno, ao trazer três personagens condenados após sua morte a viverem juntos para sempre. Os três personagens principais: Garcin, Inês e Estelle, são admitidos no Inferno que mostra ser um quarto com quatro paredes e três sofás-cabarés no qual não se pode apagar a luz.

Um por um, são introduzidos ao quarto por um criado e ficam surpreendidos ao perceber que o Inferno é apenas aquilo.

Ao irem percebendo que estão destinados a passarem o resto da eternidade juntos e que os seus laços com os vivos se enfraquecem,  eles começam a se irritar um com o outro.

Inês se irrita com um tique que Garcin tem com a boca, Estelle com os canapés que não combinam com suas roupas e de que não há espelhos para que ela se olhe e Garcin com as suas companheiras que, segundo ele,  falam demais. Além  disso, cria-se  um triângulo amoroso, e Inês começa a demostrar interesse por Estelle, enquanto esta parece gostar de Garcin. Juntos, tentam entender o motivo do Inferno ser do jeito que é, além de descobrir o motivo pelo qual cada um dos respectivos outros se encontram lá:

Estelle: Olho para vocês dois e fico pensando que a gente vai ficar junto…eu estava esperando encontrar meus amigos,  minha família. (…) Por que nos colocaram juntos?

A partir disto, podemos imaginar, o olhar do velho institucionalizado, das pessoas vulneráveis, onde têm que enfrentar o que provavelmente será o resto de suas vidas, dividindo um quarto com outros idosos que geralmente são inicialmente desconhecidos.

Entram em jogo, as pequenas coisas que o outro faz que incomodam e os interesses de cada um e que muitas vezes não podem ser realizados. A falta de contato, e muitas vezes não saber o quanto tempo de vida nos resta, é sem dúvida alguma uma eternidade, como nesta peça de SARTRE. (SARTRE, Jean- Paul, Entre Quatro Paredes, 1944, pag.54).

Por Luiz Legnani
Secretário-geral da COBAP

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