MUNDO | Brasileiros protestam na sede mundial do Carrefour pela morte de homem negro

Dezenas de pessoas, entre brasileiros e franceses, se manifestaram nesta quarta-feira (2) na sede mundial do Carrefour, em Massy, na periferia de Paris, para denunciar a morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro assassinado pelos agentes de segurança dentro de um supermercado Carrefour em Porto Alegre, em 19 de novembro.

Convocado por uma rede de afro-brasileiros que vivem na França, o ato aconteceu na frente da principal entrada da sede global da rede de supermercados e foi apoiado por movimentos negros franceses, especialmente pela Brigada Antinegrofobia. Uma dúzia de policiais foi deslocada para o evento, que aconteceu pacificamente e dentro da lei, apesar do lockdown em vigor na França.

Durante o ato, foi lido um manifesto cobrando a responsabilização penal do grupo Carrefour neste caso. Os manifestantes seguravam cartazes que diziam “O Carrefour mata” e “Justiça para João Alberto”, entre outros.

Para a artista e pesquisadora Fabiana Ex-Souza, uma das organizadora do ato, este assassinato não é um caso isolado. “A gente sabe que o que está acontecendo no Brasil hoje é o reflexo de um racismo estrutural que data de muito tempo. A morte selvagem e brutal de João Alberto Freitas é somente a ponta de um iceberg.”

“As cenas deste assassinato não somente chocaram o Brasil, como chocam o mundo. A gente percebe que a violência que vai ao encontro dos corpos racializados, dos corpos negros, não nasceu de qualquer lugar, ela vem de uma estrutura social”, aponta.

“E é esta estrutura social que hoje a gente vem aqui questionar. ‘Onde começa o racismo estrutural?’, esta é a frase do meu cartaz. Não é um caso isolado. É hora de agir. Nós somos hoje os porta-vozes dos movimentos negros do Brasil”, diz a ativista.

A Família Diniz, do Brasil, é o segundo maior acionista do grupo Carrefour, e o país o segundo maior mercado em termos de vendas da rede, depois da França, com 17% das vendas globais.

Outros crimes

Para Ex-Souza, é preciso denunciar os crimes, para que eles não voltem a acontecer. “Vários outros crimes já foram cometidos nesta empresa. A gente sabe que dentro desta empresa existem salas isoladas que são destinadas a fazerem o que eles chamam de averiguação com os clientes considerados suspeitos de infração, isso é sequestro”, acusa.

“Isso não sou eu que estou falando, a mídia francesa tem denunciado isso, repercutido esta história, de que o Carrefour não somente promove a tortura como está ligado a organizações perigosas, como as milícias, no Brasil. Então tudo isso precisa ser investigado”, demanda.

“Esta empresa precisa responder pelos crimes que são cometidos em nome da marca. O Carrefour não pode incriminar somente os dois agentes de segurança que cometeram este crime, ela precisa reconhecer que crimes cometidos de maneira estrutural no coração desta empresa fazem parte da política da empresa. A gente conhece vários outros casos que incluem torturas e infrações aos direitos humanos, principalmente contra pessoas negras que frequentam este estabelecimento no Brasil”, conclui Fabiana.

Fundo de combate ao racismo

O Carrefour anunciou, após o crime que chocou o mundo, que vai criar um Fundo de Combate ao Racismo, que vai destinar R$ 25 milhões para a luta contra o racismo. “Uma quantia mínima e relação à fortuna e ao lucro que esta empresa produz. A Coalizão Negra por Direitos vem dizer que este tipo de ação não vai desresponsabilizar a empresa criminalmente”, comenta.

“O Carrefour disse que vai negociar com lideranças negras, mas a gente não sabe quem são. A gente exige clareza e que este pacto que a empresa está tentando fazer com a sociedade brasileira pelo combate ao racismo seja real, que implique realmente as associações e coletivos negros no Brasil para o combate à violência racial.

O grupo que esteve presente na sede da empresa também frisou que estava lá para mostrar solidariedade com a família da vítima.

Racismo sistêmico

Porta-voz do coletivo francês Brigada Antinegrofobia, o educador Franco, diz que o racismo não está só no Carrefour, mas em todo o sistema: “nas empresas, na publicidade, na mídia, nas escolas… Devemos sempre interrogar as grandes estruturas, as grandes empresas, instituições e o Estado”.

“Os Estados imperialistas se formaram tendo como base os crimes cometidos nas colônias, principalmente com a escravidão no mundo ocidental cristão. Muitas empresas que existem hoje enriqueceram explorando o trabalho negro. Mesmo que não seja o caso do Carrefour, ele faz parte deste sistema racista”, denuncia.

Além disso, para Franco “é necessário mostrar que o Carrefour no Brasil é racista”. “Os portugueses foram os primeiros a montar as bases da empresa negrocida que foi a escravidão, que violou e assassinou milhões de negros no mundo inteiro, num claro terrorismo de Estado”, aponta.

É por isso que é interessante mostrar que este racismo visceral que existe no Brasil vem daí, diz o educador. “E o Carrefour, como empresa presente neste país, tem uma responsabilidade na maneira como se estrutura este racismo estrutural, esta negrofobia.”

“A gente não se espanta de ver que o Brasil é o lugar onde a maneira como os negros são tratados é a mais violenta, porque a História conserva uma lógica. Foi lá que tudo começou, com os portugueses, e esta violência se perpetua. A gente aqui na França tem muito o que aprender com a maneira de lutar dos afro-brasileiros”, conclui o educador.

O coletivo francês questionou também o fato de os negros ocuparem os postos de segurança e caixas do Carrefour, mas não entre o quadro de dirigentes.

Convergência de lutas

Branco, o jurista brasileiro João Lacerda também participou do ato. “Eu tinha outros compromissos, mas eu vim aqui hoje porque este crime mostra que a gente está se acostumando com o absurdo. Este assassinato foi a gota d’água; a gente não pode aceitar este absurdo”, disse, indignado.

Perguntado como faz para combater o racismo no seu dia a dia, Lacerda diz que primeiro buscou entender o racismo que havia dentro dele, por viver em uma sociedade racista, e procura fazer o mesmo com as pessoas próximas. “Procuro conversar com meus próximos, conscientizá-los sobre o racismo estrutural.”

Calixto Neto, bailarino e coreógrafo, também esteve presente no ato. “Viemos pedir ao Carrefour para reparar este crime que foi cometido dentro de suas dependências e para reivindicar mudanças estruturais na empresa. Este fundo de combate ao racismo não faz nem cócegas na estrutura financeira da empresa. É preciso que o Carrefour reveja sua política interna, como eles incluem os afrodescendentes dentro da lógica da empresa. Colocar mais pessoas negras em postos de comando teria um impacto real”, afirma.

“A pergunta é: como o Carrefour quer ser lembrado daqui para a frente? Como uma empresa que mata seus clientes porque eles são negros ou como uma empresa que começou uma mudança estrutural que pode inspirar outras empresas no Barsil?”, questiona.

Ao fim do ato, que havia sido autorizada pela Polícia local, logo era de conhecimento da empresa, Fabiana Ex-Souza pediu para falar com um dos quadros dirigentes do Carrefour. Após alguns minutos de espera, obteve a resposta de que todos os quadros estavam em home office nesta quarta-feira. “Eles sabiam do ato e não prepararam nada para nos receber ou dialogar”, lamenta Ex-Souza.

No dia seguinte ao assassinato de João Alberto Freitas, Alexandre Bompard, o CEO do Carrefour, tuitou em português: “Espero que o Grupo Carrefour Brasil se comprometa, além das políticas já implantadas pela empresa”. Procurada pela reportagem da RFI para entrevistas desde a semana passada, a assessoria de Bompard ainda não enviou resposta.

Reportagem: Paloma Varón/RFI

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