Fábricas tentam persuadir trabalhadores do Vietnã a voltar ao trabalho

Thu Trang viajou para a cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã, em 2019, em êxtase por ter arranjado um emprego em uma fábrica. Trabalhava em turnos de oito horas e tinha a garantia de pagamento de horas extras, e o salário era quase o triplo do que conseguia como agricultora em casa.

Mas, durante um surto de Covid-19 neste ano, a fábrica em que trabalhava fazendo tênis Adidas, Converse e New Balance praticamente fechou. Ela e seus colegas foram forçados a viver em um apartamento apertado por quase três meses, alimentando-se de arroz com molho de soja. Em outubro, quando as restrições foram diminuindo com o aumento das questões globais da cadeia de suprimentos, Thu Trang decidiu que faria as malas e voltaria para sua província natal, Tra Vinh.

Seu gerente lhe prometeu um salário mais alto, mas ela nem quis saber quanto. “Mesmo que a empresa dobre ou triplique nosso salário, estou determinada a voltar para casa. Ho Chi Minh já foi um destino para buscarmos nosso futuro, mas não é mais um lugar seguro”, afirmou Thu Trang, que pediu que fosse identificada apenas pelo primeiro nome, porque teme retaliação da empresa e do governo.

No ano passado, os controles do coronavírus no Vietnã foram elogiados por autoridades de saúde de todo o mundo. O país teve tanto sucesso que alcançou o maior crescimento econômico da Ásia no ano passado, com 2,9 por cento.

Essa perspectiva diminuiu. Os trabalhadores fugiram das fábricas, os gerentes fazem de tudo para trazê-los de volta e os economistas estão prevendo que uma recuperação completa da produção só será possível no ano que vem.

Para os consumidores, a escassez de trabalhadores vai provavelmente piorar os atrasos dos produtos manufaturados em todo o mundo, causados por uma crise mundial de transporte e pela paralisação de fábricas durante meses no país do Sudeste Asiático. Isso pode significar uma espera mais longa por tênis Nike, calças de ioga Lululemon e regatas Under Armour antes das férias. Vários varejistas dos EUA já levaram sua produção para fornecedores na China na tentativa de aliviar a crise.

Funcionários saindo de uma fábrica após o trabalho na cidade de Ho Chi Minh, Vietnã, 25 de outubro de 2021, onde a escassez de trabalhadores provavelmente agravará os atrasos de produtos manufaturados em todo o mundo. (Linh Pham / The New York Times)© Distributed by The New York Times Licensing Group Funcionários saindo de uma fábrica após o trabalho na cidade de Ho Chi Minh, Vietnã, 25 de outubro de 2021, onde a escassez de trabalhadores provavelmente agravará os atrasos de produtos manufaturados em todo o mundo. (Linh Pham / The New York Times)

Em 2020, o Vietnã controlou o contágio. As autoridades adotaram rigorosas medidas de quarentena, rastreamento de contatos e lockdowns. Presumiram que teriam tempo para encomendar vacinas, até que as infecções e as mortes aumentaram em meados deste ano com a chegada da variante delta.

Autoridades em Ho Chi Minh e Binh Duong disseram às fábricas que os trabalhadores tinham de cumprir o modelo “três no local”, o que significava que precisavam comer, viver e trabalhar dentro das instalações da fábrica.

Os administradores das fábricas se esforçavam para fornecer tendas e banheiros para seus trabalhadores, que estavam amontoados em prédios de armazéns ou estacionamentos. A mídia local informou que centenas de funcionários em várias fábricas foram infectados. Muitas empresas sentiram que não podiam arcar com os custos de moradia de sua mão de obra, por isso encerraram a produção. De repente, milhares de pessoas ficaram sem renda.

Do Quynh Chi, diretor do Centro de Pesquisa de Relações de Emprego, que pesquisa tendências trabalhistas no Vietnã, informou que 60 por cento dos 300 trabalhadores entrevistados na última semana de setembro afirmaram que queriam voltar para casa depois de perceber que não tinham uma rede de segurança na cidade. “Eles querem se recuperar emocionalmente. Depois de dez semanas de confinamento, estão totalmente exaustos.”

O problema abalou uma indústria que se tornou a segunda maior fornecedora mundial de vestuário e calçados depois da China. Na última década, marcas internacionais se reuniram no Vietnã, atraídas por um governo relativamente estável, baixos custos e trabalhadores conhecidos pela habilidade na costura.

Nos últimos anos, o país também se beneficiou da guerra comercial EUA-China, que forçou as empresas americanas a procurar outro lugar para suas operações de fabricação no exterior.

A escassez de mão de obra hoje é mais sentida no sul. Conhecida como a “locomotiva” do país, a cidade de Ho Chi Minh e a província de Binh Duong abrigam dois dos maiores parques industriais do Vietnã. Cerca de 1,3 milhão de trabalhadores voltaram para sua cidade natal entre julho e setembro, segundo dados do governo.

Autoridades locais divulgaram que, depois que as restrições foram afrouxadas em outubro, “centenas de milhares” de trabalhadores também foram embora.

Em Ho Chi Minh, o número total de trabalhadores em zonas de processamento de exportação e parques industriais é agora de cerca de 135 mil, queda de 46 por cento, de acordo com Pham Duc Hai, alto funcionário encarregado dos esforços de prevenção da Covid-19 na cidade.

Os gerentes ligavam prometendo um salário mais alto para que os trabalhadores voltassem. Em 22 de outubro, o governo de Ho Chi Minh anunciou que forneceria transporte e acomodações gratuitos durante o primeiro mês para os trabalhadores.

As medidas tiveram algum sucesso; 90 por cento da força de trabalho da Pouyuen Vietnam retornaram à cidade, segundo Phat Nghiep, presidente do sindicato da empresa.

Mas Doan Thi Bich Tram decidiu não voltar. “Por que ficaríamos depois que eles nos abandonaram em nosso momento mais difícil no meio da pandemia?”, questionou Doan, de 29 anos, que costura luvas para a fábrica Hung Way, fornecedora da Patagonia e de outras marcas. Ela contou que, quando o governo impôs restrições ao coronavírus, passou dias sem comida e recebeu apenas cerca de US$ 130 em agosto e setembro das autoridades locais. O subsídio não era suficiente para pagar o aluguel. Ela disse que estava esperando a empresa aprovar sua demissão. “Minha confiança nas autoridades desapareceu. Elas falharam no controle da pandemia, fazendo com que muitos morressem de infecção e passassem fome.”

Varejistas dos EUA alertaram sobre os atrasos da produção no Vietnã, que podem afetar as entregas de presentes durante a temporada de Natal.

As empresas americanas estão pressionando o governo vietnamita a acelerar seu programa de vacinas, que dizem ser essencial para que os trabalhadores se sintam seguros. Apenas 29 por cento da população foi totalmente vacinada, uma das taxas mais baixas do Sudeste Asiático. O Vietnã diz que espera vacinar totalmente 70 por cento de sua população até o fim do ano.

Nguyen Huyen Trang, trabalhadora de 25 anos da Changshin Vietnam, uma das principais fornecedoras da Nike, está totalmente vacinada, mas afirmou que ainda temia o trabalho no chão de fábrica. Nguyen e seu marido voltaram para casa em Ninh Thuan, província no Vietnã central, quando os casos começaram a aumentar no fim de julho. Seu marido quer voltar para o emprego, mas a família a está pressionando a ficar. Ela contou que seu gerente ligou em outubro e ofereceu um aumento caso ela voltasse. Sua resposta foi “um não definitivo”.

Fonte: c. 2021 The New York Times Company

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