Escolas particulares dizem que estão prontas para retomada de aulas presenciais

A pergunta é simples e direta: é seguro que os estudantes voltem para escola? A resposta é complexa e pode ser absolutamente distinta, com base em fatores como as condições físicas e estruturais do colégio e a configuração familiar do aluno. Alguém que mora com a avó de 80 anos deve se expor ao convívio público, mesmo com máscara e distanciamento social? Mas e naquelas famílias em que os pais já estão de volta ao trabalho e o adolescente passa o dia sozinho tentando se concentrar nas aulas online? Não seria melhor participar de algumas atividades presenciais?

É diante desses cenários divergentes que as escolas particulares se organizam para a retomada. Arthur Fonseca Filho, diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), afirma que a maioria das instituições privadas está preparada para cumprir os protocolos de segurança e, ao mesmo tempo, estruturadas para manter o atendimento remoto para os alunos cujas famílias decidirem pelo não retorno.

“Crianças não precisam só do conteúdo online e estão exaustas. Por isso, os pais que podem, precisam e têm confiança mandam para a escola”, afirma Fonseca. Ele afirma que as estratégias para o atendimento simultâneo podem variar bastante de acordo com a estrutura das unidades, mas que, de forma geral, o que as escolas estão propondo é transpor para a sala de aula o mesmo equipamento que os professores estão usando na sala de suas casas. A diferença é que, com o retorno, uma parte dos alunos teria acesso ao conteúdo de forma presencial e a outra, por intermédio das telas. “É a mesma proposta metodológica, no ambiente da aula ou em casa. Não haverá perda. Haverá ganho na interação entre professor e aluno”, diz o diretor.

E isso, completa, vale para todas as faixas etárias. Se, por um lado, os estudantes mais velhos têm mais capacidade de compreender a importância de seguir o protocolo sanitário, as crianças menores são mais propensas a obedecer. “Os alunos de educação infantil e dos anos iniciais do fundamental são educáveis já a partir do primeiro dia, obedecem aos comandos do professor. Os adolescentes são mais difíceis nesse ponto de vista. Ainda que entendam, não respondem ao comando como os da educação infantil.”

Entre os pequenos, o retorno seria importante para diminuir a imersão em telas, como celulares e TVs. “Queremos atender as crianças para uma retomada gradual, até para refazer a vida delas sem a presença permanente do equipamento tecnológico. O mundo inteiro evitava antecipar o uso de tecnologias por causa das consequências nem sempre medidas. Vamos ter de desintoxicar e descobrir sozinhos como se faz isso.”

Direito

Se, nesse cenário de retorno, as famílias podem decidir sobre mandar ou não os filhos à escola, o professor, principalmente da rede particular, pode decidir se está seguro para o trabalho presencial? Sobre manter em casa docentes e funcionários com 60 anos ou mais e com comorbidades, não há dúvidas. Mas o restante dos professores não parece ter muita escolha.

“É evidente que, na retomada, os professores têm de voltar. A relação trabalhista é esta”, resume o presidente da Abepar. “É preciso que cada escola analise cada caso, quais as razões. Tem de ver o que fundamenta a decisão. Um exemplo: o professor mora com o casal de avós. Há situações específicas, que têm de ser tratadas individualmente pela escola. Mas não pode ser, da parte do professor, simplesmente o ‘não quero’.”

Já Luiz Antonio Barbagli, presidente do Sindicato dos Professores de São Paulo (SinproSP), considera tanto inviável como inseguro o retorno dos estudantes para as escolas em 2020, além de defender que todos os profissionais de ensino tenham a liberdade de escolher se querem ou não botar os pés no colégio. “(Pense em) um professor que não está em grupo de risco, mas não queira ir porque está com medo. Se a pandemia fez as pessoas ficarem em casa para não se infectar, o professor tem de ter o direito de não ir. No entanto, se ele se recusar, quando o ano acabar pode ser demitido.”

Além do mais, defende Barbagli, não parece ser tão simples e eficaz o modelo de aula simultânea, combinando os estudantes que estão na escola e os que permanecem em suas residências. “Terei uma câmera boa? Uma iluminação boa? Como os alunos remotos vão me ver? Terei na sala um monitor que vai ler as perguntas que chegarão dos alunos remotos ou eu terei que parar a aula e ir conferir as mensagens? A maioria das escolas não tem condições tecnológicas de fazer isso aí. Teriam de fazer investimentos de tal montante que não vão conseguir.”

Transformações

É preciso refletir também sobre que escola é essa que abrirá as portas e qual é o estudante que retornará ao espaço físico. Diante da pandemia, nenhum dos dois é o mesmo. “Não sei se os alunos que estão tão ansiosos para voltar para as escolas vão reconhecer essa escola que está seguindo os protocolos e tomando todos os cuidados. É uma outra escola que exige outro tempo de adaptação”, avalia Silvia Gasparian Colello, professora da pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Com os necessários protocolos de segurança, envolvendo normas como delimitações de espaços, regras de circulação, distanciamento entre mesas e o revezamento de alunos, o estranhamento com o novo ambiente das escolas pode causar desconforto ou frustração em uma população já fragilizada.

“Mais do que a infraestrutura, é preciso entender um pouco como os alunos estão se sentindo. Serão precisos grupos de apoio, rodas de conversa. A escola precisa estar preparada não só para transmitir as aulas, mas para ouvir os alunos e incluir os professores na discussão, pois eles estão passando por um processo emocional muito forte”, diz Luiz Gustavo Megiolaro, diretor Adjunto de Unidades Escolares do Poliedro.

As diferentes experiências da comunidade escolar com a pandemia irão influenciar as novas impressões. “Em nossa comunidade, temos pessoas que não tiveram contatos com infectados pelo covid-19, elas encaram a pandemia de forma diferente do que as que perderam entes queridos. Cada opinião é muito divergente de acordo com cada realidade”, afirma Megiolaro.

Depoimento

Ana Beatriz Ricchetti Ferreira, aluna do Colégio Visconde de Porto Seguro

“Sempre estudei no mesmo colégio e nunca esperava ficar muito tempo longe da escola, ainda mais no momento que estou, o último ano do ensino médio. O dia 16 de março foi um choque muito grande.

Acho que o que mais me marcou é que a grande vantagem do EAD também é a grande desvantagem. Antes a gente perdia tempo no trânsito, mas em casa me sinto responsável por dar o máximo. Fico muito cansada, meus amigos também. Tem dias que eu penso em acordar cedo e voltar a fazer algo que era banal, que me fazia feliz todos os dias. Porém acho que a decisão cabe às autoridades. Nosso desejo não pode ser maior que as questões de saúde pública. Temos de pensar no coletivo. Vários amigos meus estão com medo, alguns moram com os avós.

Quanto à retomada das aulas, precisamos ver como vai estar a transmissão e a mortalidade da doença. Mas não posso mentir e dizer que não iria. Já meus pais têm receio, não sei se apoiariam. Minha avó mora conosco. Tenho de pensar nela. De qualquer forma, penso que tanto eu como meus amigos não devemos nos sentir mal ou abandonados com a situação. As coisas vão melhorar, depois da chuva vem o sol.”

Reportagem/Ocimara Balmant e Alex Gomes, especiais para o ESTADÃO

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