Empobrecimento, outro impacto da pandemia

Para muitas famílias, a dor da perda de um familiar idoso por causa da covid-19, circunstância traumática por si mesma, pode ser o começo de um drama de natureza material igualmente grave e de difícil superação: a perda dos meios de subsistência. Como mostrou reportagem do Estado, para esses grupos familiares, a renda do idoso, em geral proveniente de aposentadoria ou pensão, era a única de que eles dispunham.

A morte de idosos, que fazem parte do grupo de risco de contaminação pela covid-19, faz aumentar a pobreza no País. Das pessoas mortas pela covid-19 no País, as com mais de 60 anos de idade representam 74%.

Nos últimos oito anos, o número de domicílios chefiados por pessoas com mais de 60 anos aumentou 34% (o número total de domicílio cresceu bem menos, 19%, no período). De acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 35% dos domicílios têm pelo menos um idoso. Em 18,1% deles, os idosos são os únicos provedores da renda.

A morte de pessoas nessa situação pode resultar na queda média de 20% da renda dos domicílios. “Em alguns casos, essa perda pode chegar a 100%, já que o idoso era o único provedor da casa”, segundo a autora do estudo do Ipea, Ana Amélia Camarano.

Os dramas familiares provocados por mortes de idosos pelo coronavírus relatados na reportagem são comoventes, mas também reveladores das difíceis condições de vida de parte significativa da população, bem como dos problemas econômicos e sociais que a pandemia acentuou.

O diretor da FGV Social e estudioso das condições de renda da população, economista Marcelo Cortes Neri, igualmente observa que “os idosos têm uma função de bons provedores na sociedade brasileira”.

São pessoas com renda regular (63% do rendimento de idosos provém de aposentadorias e pensões), o que lhes facilita o acesso ao crédito. Muitas dessas pessoas tomam empréstimos para auxiliar os filhos, e podem ter feito isso com mais frequência na pandemia. Essas operações podem ter feito aumentar os índices de inadimplência entre os idosos. Em 2018, o índice estava em 32%; hoje está em 37%, de acordo com a Serasa Experian. É mais uma consequência da mudança do padrão demográfico do País, que registra o crescimento mais rápido da população de idosos do que a de jovens.

Reportagem| O ESTADÃO/Notas & Informações

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