Curitiba tem o primeiro curso superior de criminologia do País

“Professor lança livro sobre a experiência inédita de criação e implantação do bacharelado no Paraná e explica quem é e o que faz um criminólogo”.

Um assassinato a cada dez minutos no Brasil. Mais de 25,7 mil mortes violentas intencionais no primeiro semestre de 2020. Crescimento de 7,1% no número de ocorrências desta natureza em relação ao mesmo período do ano anterior. Os dados do 14º Anuário Brasileiro de Segurança, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram que o país tem um longo caminho a percorrer no combate à violência.

Já na formação de estudiosos sobre as causas e efeitos da criminalidade, análise da personalidade de assassinos e formas de ressocialização, Curitiba dá o exemplo. A cidade foi a primeira a oferecer o Bacharelado em Criminologia no Brasil. A iniciativa é do Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA, que formará a turma pioneira no segundo semestre de 2022.

A motivação para criar o curso superior, explica o coordenador Marco Aurélio Nunes da Silveira, surgiu da percepção de professores e pesquisadores sobre a necessidade de uma formação específica que estudasse a criminalidade e apontasse causas e soluções para esse fenômeno na sociedade contemporânea.

“Em países de língua inglesa e outras nações da Europa, essa graduação existe há muitos anos. Em Portugal, por exemplo, faz mais de uma década e, em 2019, eles regulamentaram em lei a profissão de criminólogo. Alinhado às experiências estrangeiras e dada a importância que o fenômeno criminoso tem no Brasil, tomamos a iniciativa de abrir a primeira turma”, diz.

Mercado de trabalho

O curso superior em criminologia do UNICURITIBA começou em 2020 e tem duração de três anos, com aulas noturnas. O objetivo principal é formar profissionais para atuar nas áreas de ciências criminais, que envolvem desde a violência urbana até os crimes de colarinho branco.

Os criminólogos são preparados para encontrar soluções para a redução da violência, a partir de bases teóricas sólidas, humanísticas e técnicas adequadas à realidade brasileira. A atuação permeia três grandes áreas: criminologia teórica; segurança pública e criminalística/política criminal.

Os estudantes podem escolher entre análise criminológica, pesquisa acadêmica, investigação criminal científica e programas de prevenção de criminalidade e avaliação de riscos criminológicos, por exemplo.

O campo de trabalho é amplo, seja no âmbito público ou privado. Há oportunidades em empresas de segurança, nas polícias civis e militares, nos sistemas carcerário e penitenciário, nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Ministério Público.

Segundo o coordenador do curso do UNICURITIBA, a partir deste ano o bacharelado em Criminologia deve ser oferecido também em outros estados, em instituições de ensino superior pertencentes à Ânima Educação – do qual o Centro Universitário Curitiba faz parte.

Livro conta a história do curso

O curso superior de criminologia é novo, mas sua história já pode ser conhecida no livro “O ensino da criminologia no Brasil – Relato do primeiro curso superior brasileiro e propostas para a regulamentação do ensino superior e da profissão”, escrito pelo professor Marco Aurélio Nunes da Silveira (Edit. Observatório da Mentalidade Inquisitória, 120 páginas, R$ 39,00).

Lançada em dezembro de 2020 pelo Observatório da Mentalidade Inquisitória – um instituto de pesquisa em ciências criminais com atuação em países latino-americanos, a obra está à venda no site www.observatoriomi.org.br. “Assim que possível, faremos um evento oficial de lançamento e, em breve, o livro estará disponível para compra também pela Amazon”, avisa o escritor.

Doutor em Direito do Estado, mestre em Direto das Relações Sociais e professor do doutorado em Ciências Penais da Universidad de San Carlos de Guatemala, Silveira é autor de outras publicações, artigos e livros, entre eles “Por uma teoria da ação processual penal”, lançado em 2018.

Em “O ensino da criminologia no Brasil”, o professor vai além da história da criação do curso. Apresenta a concepção da criminologia como uma ciência social, aborda aspectos como as ciências forenses, política criminal e segurança e propõe a formalização e reconhecimento da profissão – a exemplo do que fez Portugal.

Violência no Paraná

O Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) mostra que a incidência criminal no Paraná diminuiu entre 2016 e 2020. Ainda assim, os homicídios dolosos fizeram 1.492 vítimas até setembro do ano passado, uma taxa de 12,95 para cada 100 mil habitantes. Se somados os crimes de lesão corporal seguida de morte e latrocínio (roubo seguido de morte), o número passa para 1.567.

No Brasil, o número de homicídios dolosos chegou a 31.175 até setembro do ano passado, uma taxa de 14,72/100 mil habitantes – 89,33% das vítimas são do sexo masculino. Entre jovens de 15 a 29 anos, os homicídios são a principal causa de mortalidade, segundo o Atlas da Violência 2020 desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Na comparação entre os estados, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança, quem puxou para cima o índice de homicídios no primeiro semestre de 2020 foi o Ceará – com um crescimento de 97% nos casos de assassinatos em relação ao mesmo período do ano anterior. Até setembro, aponta o Sinesp, foram 2.997 vítimas de homicídio doloso (32,62/100 mil hab) naquele estado.

Sherlock Holmes de saias

Com tantas estatísticas e dados a serem analisados, trabalho não falta para quem escolhe uma carreira na área de criminologia. Só se engana quem pensa que a profissão é majoritariamente masculina.

Assim como a ficção trouxe às telas a corajosa e intempestiva Enola Holmes, irmã do famoso detetive Sherlock Holmes, na vida real as mulheres também vêm ganhando espaço no universo da ciência criminal.

Prova é que mais da metade do corpo discente do curso de Criminologia do UNICURITIBA é formado por mulheres. Mesmo fenômeno observado nos cursos de Direito, diz o professor Marco Aurélio da Silveira.

“Cada vez mais mulheres atuam em questões relacionadas à criminalidade, em todas as esferas profissionais, inclusive nas carreiras policiais. A sociedade tem gradualmente superado os arraigados preconceitos no sentido de associar essas profissões aos homens.”

A pluralidade é uma característica entre os estudantes de Criminologia, continua o coordenador. Nas turmas há desde jovens concluintes do ensino médio até profissionais do Direito e da Psicologia em busca de segunda graduação. “As motivações são diferentes. Temos aqueles que já se decidiram por carreiras policiais, outros que desejam complementar a formação anterior e um grupo que pretende seguir na área acadêmica e de pesquisa.”

Novos olhares para a carreira

Com formação técnica em radiologia e fã de séries investigativas como CSI, Karin de Fátima Taborda, 25 anos, tinha uma certeza quando começou a graduação em Criminologia: queria ser perita criminal. “Não demorou para o curso ampliar meu pensamento crítico e me apresentar outras possibilidades de carreira”, conta.

Estudante do 3º período, Karin está agora inclinada a seguir na área acadêmica e de pesquisa. A criminologia crítica é o que tem chamado a atenção da jovem. “Passei a analisar a violência e a criminalidade com outros olhos. Nas aulas discutimos as raízes da violência, longe do senso comum, e compreendemos que as questões sociais são bem mais complexas. Isso mudou meu foco sobre os rumos que desejo seguir, abriu novos horizontes.”

Seja qual for a profissão que Karin vai desempenhar, uma certeza ela tem: “Foi neste curso que eu me encontrei. A cada aula temos debates, reflexões e a desconstrução de preconceitos e paradigmas. O curso é multidisciplinar e tenho colegas já formados em outras graduações. A grade curricular inclui direito, psicologia, perícia criminal, medicina legal e forense, direitos humanos, abordamos questões como adolescentes em conflito com a lei, estudamos o sistema prisional, enfim, são vários aspectos”, conta.

Formada em Direito, Beatriz Moro, 44 anos, percebeu durante a primeira graduação seu interesse pela criminologia e pela perícia criminal. Por isso, logo que soube do inédito curso superior oferecido pelo UNICURITIBA, decidiu se inscrever.

Estudante do segundo ano de Criminologia, ela diz que apesar da relação com o curso de direito, as duas ciências são autônomas. “Embora se complementem, não precisam necessariamente estar interligadas, ainda que isso seja inevitável.

A criminologia estuda fenômenos socioeconômicos, culturais e comportamentais e os fatores que antecedem o delito. Esse detalhe a coloca em posição privilegiada na linha das causas e formas de prevenção, que em consonância com o direito constrói o trâmite processual de maneira científica e segura”, comenta.

Colaboração: Mem & Mem Comunicação   

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