Crise política ameaça crescimento de 2022, dizem pesquisadores da FGV

RIO – A “normalização” das atividades, conforme avança a vacinação contra covid-19, garantirá o crescimento econômico deste ano, mas os problemas, agravados pela elevação de tom da crise política, ficará para 2022, dizem pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

O instituto projeta crescimento de 1,5% no Produto Interno Bruto (PIB) de 2022, ante 4,9% este ano, mas o risco é o desempenho da economia ser ainda pior. Para Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do Ibre/FGV, o agravamento da crise política após as manifestações do 7 de Setembro antecipou de vez o debate eleitoral.

Segundo a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre, a “normalização” das atividades em função da vacinação fará a economia apresentar, no terceiro trimestre, desempenho parecido com o do segundo trimestre, com avanço do setor de serviços e recuos na indústria e na agropecuária. A reabertura garante um “crescimento automático” em 2021 porque a simples “normalização” já levará o ritmo da atividade a ficar acima do visto em 2020, por causa da pandemia.

Reprodutor de vídeo de: YouTube (Política de PrivacidadeTermos)

Mesmo assim, há riscos de curto prazo. A crise hídrica, que sinaliza para problemas na geração de energia elétrica, traz um “desafio ainda maior” para a indústria, já afetada pela escassez e pelo encarecimento de componentes, por causa da pandemia, segundo Silvia Matos. Por enquanto, o estresse na geração de energia cria mais um “desafio de custos” para a indústria, mas o quadro pode piorar se houver racionamento.

“(A falta de eletricidade) Não é o cenário-base, mas o risco existe”, afirmou a pesquisadora, durante o III Seminário de Análise Conjuntural de 2021, promovido em transmissão via internet pelo Ibre/FGV em parceria com o Estadão.

Ainda que os impactos da crise hídrica sejam piores do que o esperado, eles deverão ser mais sentidos em 2022. Esse quadro, combinado à crise política, ameaça até mesmo o crescimento de 1,5% projetado para o ano que vem. Diante das turbulências políticas, “o cenário atual pode levar a crescimento abaixo de 1,0%”, de acordo com Silvia Matos.

“Já tinha visão bem negativa em relação a um ano de eleição (2022), mas, infelizmente, não tinha colocado na conta um cenário tão dramático”, afirmou a economista, referindo-se à escalada da crise após discursos do presidente Jair Bolsonaro em protestos no 7 de Setembro.

A jornalista Adriana Fernandes mediou o debate com os economistas Silvas Matos, José Júlio Senna e Armando Castelar.  © Reprodução/YouTube A jornalista Adriana Fernandes mediou o debate com os economistas Silvas Matos, José Júlio Senna e Armando Castelar. 

Para Castelar, que também participou do seminário, diante das manifestações do 7 de Setembro e dos discursos do presidente Jair Bolsonaro nos atos, o avanço da vacinação e o controle da pandemia deixaram de ditar o ritmo do cenário econômico. O debate sobre as eleições gerais de 2022 foi definitivamente antecipado. Assim, o cenário econômico passa a ser ditado pelo quadro de 2023 em diante, ou seja, pelo programa do próximo governo.

É um quadro parecido com a crise política causada pela revelação de gravações de uma conversa do ex-presidente Michel Temer com os donos do frigorífico JBS, em 2017. A revelação, que quase levou Temer a renunciar e fez o então presidente enfrentar a votação, no Congresso Nacional, de um pedido de autorização para abrir investigação, tirou o foco das expectativas econômicas do andamento de reformas e jogou para as eleições de 2018.

Castelar vê problemas na antecipação do debate eleitoral. Um deles é que é muito cedo para começar esse debate. “É muito tempo antes (da eleição). O eleitor não está pensando em eleição, então, é muito difícil prever (o resultado)”, disse o pesquisador.

Além disso, o desenho atual do debate eleitoral traz “uma incerteza muito grande” sobre os rumos da economia de 2023 em diante. Embora a eventual viabilização de um candidato de “terceira via que anime o mercado” possa melhorar as perspectivas, os dois principais candidatos colocados para 2022, o presidente Bolsonaro, que pode pleitear a reeleição, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “não têm compromisso forte com a disciplina fiscal”.

“O ator principal agora é o atual presidente (Bolsonaro), mas o fato de o líder das pesquisas ser um candidato (Lula) contra a âncora fiscal, contra o teto (de gastos públicos, que limita as despesas do Orçamento federal ao valor do ano anterior, corrigido apenas pela inflação), também conta”, afirmou Castelar.

Para piorar, o pesquisador acredita que, diante das demonstrações de apoio a Bolsonaro nos atos de 7 de Setembro, o ambiente político poderá continuar “tumultuado” mesmo após as eleições de 2022. Em outras palavras, o próximo governo federal também poderá enfrentar crises políticas.

Reportagem: Vinicius Neder/ESTADÃO

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