Candidatos do Enem sofrem com longos textos, mas elogiam proposta de redação

Candidatos que participaram do primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste domingo, 21, elogiaram a proposta de redação, que trouxe o tema “Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil”. Por outro lado, alguns estudantes disseram ter sofrido para enfrentar textos que consideraram excessivamente longos em questões das ciências humanas e linguagens.

O estudante Eduardo Pretel, de 18 anos, que pretende cursar Psicologia, optou por fazer primeiro a redação e acha que deu conta de entregar um texto bem formulado. “Embora não fosse um tema político, na proposta final foi possível criticar as diferenças sociais do país em que a gente vive. Em certas regiões, sabemos que muitas pessoas passam parte da vida sem ter uma simples certidão de nascimento”, disse ele, que fez a prova em Sorocaba, no interior de São Paulo.

Já as questões, sobretudo de linguagens e ciências humanas, não foram tão fáceis. “As primeiras 45 até que fiz com boa concentração, mas depois foi dando cansaço.”

Em seu primeiro Enem, a estudante Emily Eduarda, de 18 anos, aproveitou o tema da Redação para também expor as desigualdades no País. “Parece uma coisa irrelevante para quem tem uma boa base social, mas muitas pessoas não têm o registro (de nascimento), o que tira dela o direito de viver como cidadã, de ser considerada como pessoa que participa da sociedade e tem os direitos respeitados”, afirmou.

A estudante, que terminou o ensino médio este ano, disse que teve dificuldade para estudar para a prova devido à pandemia. “Tive muita aula remota que não é a mesma coisa que a presencial”, reclamou.

A candidata Karolayne Antunes, de 23 anos, disse que o tema a surpreendeu por ser fácil de desenvolver. “Você vê todo dia esse problema, de pessoas que não têm esse direito mais básico: o documento que a faz ser reconhecida como pessoa. É uma coisa que está na nossa cara. Se a pessoa não consegue ter sequer uma certidão de nascimento, o que mais ela pode ter? Quanta coisa mais falta para ela?”, questionou.

A estudante disse que o tema da Redação e as demais questões não trataram da questão de gênero, que está em evidência no País.

Em Porto Alegre, o estudante de TI Igor Ramires, de 20 anos, classificou a prova como “densa, longa e cansativa”, uma característica já apontada em outros anos. O que surpreendeu mesmo Igor foi o tema da redação, que fugiu de questões atuais. “Está fora do que está acontecendo, achei que seria algo em relação à pandemia. Sobre o que tá acontecendo com o aquecimento, e veio algo completamente oposto.”

Ele afirma que no princípio chegou a pensar em ter cuidado nas palavras para não escrever nada que fosse ideologicamente contrário ao que prega o presidente Jair Bolsonaro, mas acabou preferindo não se censurar. “No começo eu pensei ‘será que me seguro’, mas não me segurei, coloquei as palavras que achei que tinham que estar ali.”

No Rio, Mariana Mercês, de 21 anos, fez o Enem pela segunda vez interessada em cursar comunicação social, com ênfase em audiovisual. Ela conta que acompanhou pelas redes sociais o debate em torno da possível intervenção do governo na prova. “Fiz a prova ligada nisso e, sinceramente, não percebi nenhuma questão estranha, algo fora do que estudei e aprendi”, disse ela, que elogiou o tema da prova, embora tenha ficado surpresa com a escolha.

“Poderia ser algo sobre a pandemia, mas seria também um pouco óbvio. Esperava um tema relacionado a preços relativos, aumento do custo de vida. Mas veio o tema dos brasileiros invisíveis pela falta de registro e documentação. É um tema que gostei e acho que fui muito bem”, disse ela, para quem a prova foi mais cansativa do que em anos anteriores. “Questões pareciam mais elaboradas, mais difíceis.”

Thiago Pereira, de 17 anos, fez o Enem pela terceira vez para tentar uma vaga no curso de Administração. O estudante também achou a prova mais cansativa do que nas edições anteriores, citando uma sequência longa de questões de interpretação de texto. “Foi bem cansativo, com muitos textos, alguma de duas páginas. Acredito que na próxima semana a prova vai ser mais tranquila”, disse o candidato.

Alívio

Quando saiu pelos portões da PUC Minas, em Belo Horizonte, na noite deste domingo, a sensação do estudante Felipe Santos Silva, 17 anos, era de alívio. “Parece que eu tirei um enorme peso das costas”, diz.

Para o aluno do curso técnico de engenharia mecatrônica do Cefet-MG, que chegou desconfiado ao campus diante das polêmicas envolvendo o exame, o primeiro dia de provas do Enem foi “surpreendentemente bom”.

“Achei que eles iriam evitar ao máximo temas de racismo e feminismo, mas não foi o que aconteceu. Só achei a prova de linguagens extremamente desgastante, com muitos textos gigantes em cada questão”, conta o estudante.

Em Salvador, o tema da redação do Enem causou surpresa nos estudantes. A maior parte dos inscritos esperava um tema que fosse mais “a cara do governo Bolsonaro”.

“É um tema que vem sendo pouco discutido nas redes sociais, na TV, eu não esperava. Estava bem confiante no início da prova, quando vi um tema tão diferente do que eu esperava, fiquei nervoso. Admito que tremi um pouco, mas respirei fundo, me acalmei e acho que desenvolvi bem o tema, usei muito os textos de apoio”, comentou Thiago da Silva Brito, estudante do terceiro ano do ensino médio.

“A escolha do tema é apenas mais uma demonstração do trabalho desses servidores que prepararam, a bem da verdade, as questões e depois montam as provas centradas em fundamentadas teorias pedagógicas”, comentou o professor da Faculdade de Educação da UFBA e membro da Academia de Ciências da Bahia, Nelson Pretto. /JOSÉ MARIA TOMAZELA, BRUNO VILLAS BÔAS, ALINE RESKALLA, LAILA NERY E EDUARDO AMARAL, ESPECIAIS PARA O ESTADÃO

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