Bordadeira de 90 anos mantém tradição do crivo na Grande Florianópolis

Dona Maria do Crivo fia apenas com uma vista há uns 20 anos, desde quando sofreu descolamento da retina e perdeu da visão do olho direito

Quando pequena, Maria fazia de tudo um pouco, colhia e pilava café, ordenhava vacas, fazia farinha e, quando sobrava tempo, criava rendas de crivo. A menina Maria queria viver de criar e crivar, mas precisava correr de um lado a outro para ajudar os pais na roça. Ela não sabe ao certo, mas foi por volta dos 10 anos que a paixão pelo bordado começou e desde então lá se vão 80 anos de Mariazinha para Maria do Crivo.

Aos 90 anos de idade, dona Maria do Crivo, batizada Maria Nunes, não larga o bastidor (peça que dá apoio à confecção do crivo) apesar dos insistentes apelos da filha Rute Silva da Costa, também criveira. Dona Maria fia apenas com uma vista há uns 20 anos, desde quando sofreu descolamento da retina. Para surpresa geral, a experiente bordadeira de crivo enxerga muito bem apenas com o olho esquerdo e sem apoio de óculos.

É pela idade avançada e a perda da visão do olho direito que Rute implora para a mãe descansar, deixar o trabalho de lado. Dona Maria sorri, faz uma pequena pausa fingindo obediência e volta as mãos ágeis para a agulha. Como que para provar sua alta capacidade ocular, Maria do Crivo faz passar a linha pelo buraco da agulha com a facilidade que detêm de décadas de repetição.

Maria Nunes nasceu em Areias do Meio, hoje bairro de Governador Celso Ramos, mas que na década de 1930 pertencia a Biguaçu. Esses dois municípios são os herdeiros da tradição açoriana da renda de crivo, como Florianópolis é da renda de bilro e São José é da cerâmica.

Há 70 anos, desde quando casou aos 20, dona Maria mora no bairro Jordão, em Governador Celso Ramos. Na antiga casa, criou nove filhos e gosta de afirmar que todos eles foram educados com a ajuda do crivo que ela fazia dia e noite para vender desde o bairro até a Capital. “Exponho na Alfândega há 30 anos”, destaca, orgulhosa.

A produção de Maria do Crivo não tem o mesmo ritmo de outrora, mas a dedicação e responsabilidade com as encomendas continua a mesma. “Ela não sossega enquanto não termina uma encomenda. Quer fazer tudo de uma vez”, comenta a filha, Rute. “Não gosto de ficar com trabalho para fazer”, argumenta Maria.

Herança de família

Ela não sabe detalhes, apenas tem certeza de que tecer crivo vem passando das mãos de avós para mães, que passam para as filhas, que ensinam às netas. Maria conta que cedo, aos oito ou dez anos, começou a utilizar o bastidor, tecido, linha e agulha. A produção da renda de crivo encantou a menina, que a cada dia se interessava mais pela distração.

Rute observa o dedicado e incansável trabalho da mãe, Maria do Crivo – Foto: Anderson Coelho/ND

Mas ela só podia tecer nos momentos de folgas. “Minha mãe dizia: larga isso aí e vai torrar café. E quando era época de farinhada, eu não conseguia fazer nada de crivo. Ficava maio, junho e julho só na casa de farinha”, lembra.

Naquela época, a garota nem imaginava que a brincadeira se tornaria profissão e que, assim como a mãe, também passaria o saber tradicional para as filhas. “Eu acho que minha avó ensinou para a minha mãe. É uma tradição de Portugal, lá dos Açores”, comenta Maria, descendente de família açoriana.

Rute Silva da Costa, 63 anos, é filha e herdeira do saber da mãe criveira. “Aprendi aos oito anos. Toda a vida eu gostei (de fazer o crivo)”, afirma Rute, que tem recebido pedidos insistentes da neta de sete anos que quer aprender a fazer rendas como a avó e a bisa.

Falta interesse

Além de passar conhecimento ancestral para as familiares, mãe e filha levaram adiante a arte do crivo em cursos pela Grande Florianópolis e também em outros Estados. Rute deu aulas por muitos anos no Cedup (Centro de Educação Profissional) e em projetos na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Atualmente, trabalha apenas em Governador Celso Ramos com aulas particulares, mas o número de alunas é cada vez menor.

Mãos ágeis de Maria, aliadas ao uso do bastidor, dão novas formas ao tecido – Foto: Anderson Coelho/ND

“A tradição está se perdendo. Hoje não se tem muito interesse por trabalhos manuais”, acredita Rute. “Quem continua com crivo são as pessoas mais velhas, que têm nessa lida uma distração. Quem faz crivo é porque gosta muito, porque hoje não tem tanta procura como antes”, complementa a Maria do Crivo.

Com rendas, sem leitura e com título de eleitor

Dona Maria aprendeu a fazer quase tudo que uma moça do início do século passado deveria saber, conforme o padrão da época. Para ela, a maior lacuna em sua formação é não saber ler. “Minha mãe nunca me deixou aprender a ler. Ai, meu Deus, eu queria tanto! Mas ela não aceitava, dizia que não precisava. Mas aprendi a escrever meu nome”, conta a criveira, resignada.

Aos 40 anos ela frequentou uma sala de aula do extinto Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), onde aprendeu a escrever o nome. “Eu quis pelo menos aprender a assinar meu nome para votar. Faço questão de ir lá escolher quem eu quero. Vou enquanto puder”, afirma.

A técnica do crivo

O crivo, assim como o bilro, tem origem nos Açores de onde vieram os familiares de dona Maria. A criveira afirma que a tecedura do crivo é menos complexa do que a do bilro. O crivo é feito numa armação de madeira chamada bastidor.

Primeiro, a artesã precisa desfiar, vazar o tecido separando os fios e cortando para fazer quadradinhos. Em seguida, os espaços são preenchidos com o desenho escolhido. Para isso, é utilizada uma agulha. A etapa seguinte é a de urdir e precisa de muita atenção para reforçar, com linha, as laterais de cada quadrado. Por fim, a criveira dá o acabamento para que o tecido não desfie.

As etapas para tecer o crivo são recitadas por Maria Nunes com a naturalidade de quem consegue bordar de olhos fechados e com vários sorrisos no rosto.

Foto: Anderson Coelho/ND

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