A imagem da santa venerada pelos argentinos que pode ser de origem brasileira

Quando visitou o Brasil, em julho de 2013, na primeira viagem internacional de seu pontificado, papa Francisco afirmou que a velha rivalidade com os “hermanos” havia sido resolvida. “Já está totalmente superada, porque negociamos bem: o papa é argentino e Deus é brasileiro”, afirmou ele, bem-humorado.

Se Francisco incluiu a Catedral Basílica Santuário Nacional de Aparecida, no Vale do Paraíba, em seu roteiro naquela viagem, é provável que tenha lhe ocorrido que celebrar a padroeira do Brasil também era uma maneira de se referir indiretamente à padroeira de sua terra natal, a Virgem de Luján — ou Nossa Senhora de Luján. Isso porque uma teoria já bastante aceita entre religiosos e estudiosos de arte sacra faz crer que ambas as imagens são irmãs: feitas na mesma época e com o mesmo tipo de matéria-prima, há indícios que seriam obras do mesmo artista — no caso o monge beneditino Agostinho de Jesus (1600-1661).

“O barro de que foram feitas as duas imagens e as mãos que as confeccionaram são as mesmas. Por isso podemos dizer que Nossa Senhora de Luján e Nossa Senhora Aparecida são brasileiras”, afirma à BBC News Brasil o pesquisador José Luís Lira, fundador da Academia Brasileira de Hagiologia.

As imagens sacras em questão são as peças originais de Nossa Senhora da Conceição — a representação de Maria, mãe de Cristo, grávida de Cristo — que inspiraram a devoção popular nos dois países. No caso brasileiro, a Nossa Senhora negra encontrada pelos pescadores no rio Paraíba do Sul em 1717 e que hoje segue atraindo milhões de católicos ao santuário erguido em sua honra na cidade de Aparecida. Já a versão argentina chegou à região de Luján em 1630 — e por causa dela ali foi erguido e reúne fiéis no Santuário e Basílica Nossa Senhora de Luján.

No livro Ela É Minha Mãe! – Encontros do Papa Francisco com Maria, o padre Alexandre Awi Mello, secretário do Dicastério para os Leigos, Família e Vida — órgão do Vaticano —, conta um pouco dessa história. “Ambos os povos estão unidos também no coração e na imagem de Maria Imaculada. E união, de fato, é o que começou a acontecer em torno da pequena imagem de Luján”, escreve ele.

“Diga-se de passagem que, sendo brasileiro, ao escutar sobre a imagem de Nossa Senhora de Luján, eu não pude deixar de associá-la à de Nossa Senhora Aparecida. Ambas representam a Imaculada Conceição, têm praticamente o mesmo tamanho e foram confeccionadas na mesma região e com o mesmo material”, afirma, no livro. “Alguns estudos têm procurado demonstrar o ‘parentesco’ das duas imagens que captaram a devoção mariana de milhões de fiéis, vizinhos e irmanados por obra da Providência até mesmo em suas padroeiras nacionais. É mais uma confirmação de que Maria une os povos.”

Em conversa com a reportagem, por e-mail, Mello demonstra cautela. “Daquilo que entendi nas pesquisas que fiz naquela ocasião [para a produção do livro], não há um consenso entre os especialistas, mas é possível que ambas imagens tenham sido feitas na mesma região”, diz o padre. “Feitas no Brasil, visto que a imagem de Luján, segundo os relatos, foi enviada do Brasil para a Argentina.” O secretário do Vaticano conta que na residência de Francisco há uma imagem da Virgem de Luján e “nos jardins vaticanos estão presentes as duas imagens, junto a várias outras de diferentes regiões do mundo”.

A história

O livro de Mello traz um resumo de como essa imagem de Nossa Senhora teria chegado à Argentina. Tratou-se de encomenda (e isso é considerado comprovado entre pesquisadores) de um fazendeiro português chamado Antonio Frias Sáa, cuja propriedade ficava em Sumampa, hoje Província de Santiago Del Estero. Era 1630.

 

Não existe consenso sobre ‘irmandade’ entre imagens da santa argentina (foto) e da brasileira© José Luís Lira Não existe consenso sobre ‘irmandade’ entre imagens da santa argentina (foto) e da brasileira

“[Ele] pediu a um de seus compatriotas, que morava no Brasil, que lhe enviasse uma imagem de Nossa Senhora para colocar na capela de sua fazenda. Seu amigo lhe enviou, então, duas imagens feitas na região de São Paulo, uma da Imaculada Conceição e outra de Maria com o menino Jesus nos braços. Em maio daquele ano, as imagens chegaram ao porto de Buenos Aires, foram acomodadas cada uma em uma caixa e transportadas por uma carreta rumo ao destinatário”, relata o padre.

“Três dias depois de iniciado o caminho, o comboio fez uma parada a cinco léguas da atual cidade de Luján (aproximadamente 24 km), na altura de uma localidade chamada Zelaya, no atual município de Pilar, para pernoitar na Estância de Rosendo de Trigueros”, prossegue. “Conta a história, para alguns considerada lenda, que no dia seguinte, na hora de partir, os bois não conseguiam mover a carreta. Depois de várias tentativas frustradas, removeram um dos caixotes da carreta e os bois começaram a andar sem dificuldade. Intrigados, descobriram que dentro do caixote estava a pequena imagem da Imaculada Conceição, de 38 cm de altura, feita de barro cozido. O fato foi interpretado providencialmente e a imagem deixada na fazenda, dando início assim ao culto daquela que viria a ser chamada de Virgem de Luján.”

Em entrevista à BBC News Brasil, a historiadora Zenilda Cunha, membro da Associação dos Guias do Circuito Turístico Religioso e que realizou monitorias no Santuário de Aparecida por 13 anos, afirma que “há uma relação entre as imagens” e que certamente a imagem de Luján “é brasileira” e ambas foram confeccionadas com o mesmo material.

“As fontes historiográficas sobre a viagem da Santa argentina são unânimes em dizer que é uma encomenda feita ao Brasil”, confirma à reportagem o padre Rodrigo Vilela, professor da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Se a devoção à santa argentina começou ainda no século 17, contudo, a hoje padroeira do Brasil só seria encontrada por pescadores nas águas do Rio Paraíba do Sul em 1717. A hipótese de que a imagem teria ficado submersa por décadas, inclusive, é uma das possíveis explicações para o fato de a versão brasileira ser mais escura do que a venerada na Argentina.

“Quem vê uma imagem percebe a semelhança com a outra. Isso aconteceu comigo. A grande questão é que uma ficou escura por passar — se contarmos a data em que a imagem de Nossa Senhora de chegou a Luján e a encontrada em Aparecida, daria 87 anos — décadas submersa e ter adquirido a tonalidade barrenta da água do rio Paraíba do Sul. Inicialmente o que as diferenciaria seria isso”, acredita Lira.

Oficialmente, Nossa Senhora Aparecida tornou-se padroeira do Brasil em 16 de julho de 1930, por decreto do papa Pio 11 (1857-1939). Já o feriado de 12 de outubro foi instituído bem mais tarde: a lei, sancionada pelo presidente João Figueiredo (1918-1999), é de 30 de junho de 1980.

Foi o mesmo papa Pio 11 — e no mesmo ano de 1930 — que reconheceu o patronato da Virgem de Luján. Durante as comemorações dos 300 anos da chegada da imagem às terras argentinas, ela se tornou, pela Igreja, não só padroeira da Argentina — como já era informalmente tratada — como ainda das vizinhas repúblicas do Uruguai e do Paraguai. A santa ainda foi reconhecida oficialmente como padroeira das estradas argentinas (em 1944), da Polícia Federal Argentina (1946) e das ferrovias do país (1948).

A autoria

As imagens não são assinadas, mas a partir de diversas análises realizadas hoje acredita-se que ao menos a de Nossa Senhora Aparecida seja obra do monge beneditino Agostinho de Jesus (1660-1661), considerado o primeiro escultor nascido no Brasil — segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, “o primeiro artista plástico nascido no Brasil”. Carioca, ele viveu um tempo no mosteiro beneditino de Salvador. Ali teria aprendido o ofício com um homônimo português, o também monge Agostinho da Piedade (1580-1661) — conforme conta, em artigo, o monge beneditino João Baptista Barbosa Neto.

Mas se o mestre usava terracota baiana como sua matéria-prima, o aprendiz, quando se mudou para um antigo convento de sua ordem que existia em Santana de Parnaíba, passou a utilizar a argila paulista. A diferença da matéria-prima foi peça-chave para pesquisadores contemporâneos atestarem a autoria. “Pode haver alguma divergência isolada, mas, pelas características, o consenso é de que o autor da imagem é frei Agostinho de Jesus”, pontua o pesquisador Lira.

“Ao estudar a imagem, percebeu-se que ela era feita de barro cinza claro cozido, um barro paulista, diferente do barro da Bahia, de Pernambuco, de grandes canteiros que esculpiam em terracota naquele período”, afirma a historiadora Cunha. A análise definitiva foi realizada após o maio de 1978, quando a imagem de Aparecida foi quebrada em uma tentativa de roubo — durante o restauro, o material foi amplamente estudado.

Mas e a Virgem de Luján? “A imagem tem todas as características das feitas por frei Agostinho de Jesus. Em 1630, ele vivia no Estado de São Paulo, com uns 30 anos de idade. As características das imagens feitas por ele são rapidamente identificáveis: forma sorridente dos lábios, queixo encravado, flores em relevo no cabelo, porte empinado para trás, entre outras”, enumera Lira. “Altura e peso das imagens expostas em Aparecida e Luján são praticamente iguais. Hoje fica difícil saber o peso exato de Nossa Senhora de Luján por conta da placa de bronze que a envolve, mas, a altura é praticamente a mesma de Nossa Senhora Aparecida que tem 36 centímetros de altura e pesa 2,50 kg.”

“Portanto, eu acredito que as imagens de Nossa Senhora de Luján e Nossa Senhora Aparecida são as mesmas”, crava ele. “O autor, indiscutivelmente é o mesmo. O título, o mesmo, e a imagem nos unem nessa devoção mariana. Sempre que vou à Argentina, tenho que passar em Luján como quando vou a São Paulo gosto de ir a Aparecida.”

Padre Vilela, por sua vez, prefere acreditar que ambas as imagens são oriundas de uma mesma escola, não necessariamente do mesmo autor. “Já foi tentado fazer essa ligação, mas se for tomada como referência a produção do frei Agostinho de Jesus, a imagem argentina [considerando quando foi encontrada a versão de Aparecida] é cronologicamente anterior e, quanto ao estilo, mais rústica, de acordo com especialistas em história da arte colonial”, afirma. “Pelo menos uma geração anterior.”

Pesquisador de direito canônico, arte sacra e história da arte, padre José Fernandes Lucena, que já atuou na Argentina, defende a tese de que ambas as imagens foram feitas, no mínimo, no mesmo ateliê. “A de Nossa Senhora Aparecida é quase certa que foi feita pelo frei Agostinho de Jesus. Pelos traços, a de Luján ou também é dele ou de algum discípulo. Ambas são de barro paulista. Se não foi ele, foi algum discípulo. Saíram da mesma oficina”, afirma ele, à BBC News Brasil.

O hagiólogo Lira acredita que ainda levará um tempo para que essa teoria ganhe o consenso. “A devoção argentina se iniciou cerca de 87 anos antes e isto a faria mais antiga. Também a descoberta das semelhanças das imagens é algo recente, digamos assim”, pondera. “Lembro-me de que na transmissão de uma rede de televisão da visita do papa Francisco a Aparecida, dom Darci José Nicioli, então bispo auxiliar de Aparecida, se dizia admirado com a informação de que as imagens eram as mesmas. Imaginemos os fiéis. Penso que mesmo na academia o assunto ainda seja novo. Eu comecei essas especulações em 2012 quando iniciei meus estudos de mestrado e de doutorado naquelas terras argentinas e de logo, ao chegar a Luján, me senti acolhido pela padroeira de minha nação, Nossa Senhora, a mesma Aparecida.”

Esta notícia é da BBC NEWS

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