Família Fernandes esperou o encontro com a sobrinha por mais de 40 anos (Metropol)

Pedro Manoel Fernandes tinha uma marcenaria no Bairro Metropol, em Criciúma. Ele e a esposa Florisbela Elias Fernandes tiveram 13 filhos. O único que não está vivo é Vilmar Fernandes. Em 1977 ele bateu a kombi que dirigia contra um fusca, em Cascavel, no Paraná. Ao seu lado estava a esposa, Ivone Antonieta Basso, grávida de três meses. Ambos caíram fora do veículo pela porta do caroneiro e bateram com a cabeça no asfalto sofrendo traumatismo craniano. Apenas a filha Indianara, com apenas três anos, sobreviveu. A avó materna, Edwiges Basso, conseguiu a guarda da neta que cresceu sob seus cuidados.

Na época da tragédia, os Fernandes moravam em Joinville. Quando as cartas de Vilmar não eram mais recebidas no endereço da mãe e nenhum telefonema era recebido pelo pai, um dos irmãos tirou férias e viajou para descobrir os motivos da falta de notícias.  Eles souberam da morte do irmão dois anos depois do acontecimento. Alguns deles souberam, mais tarde ainda.

A situação financeira, os poucos recursos de comunicação, a dificuldade de transporte e a falta de informações fez com que a família perdesse totalmente o contato com a neta e sobrinha. A filha mais nova, Maria de Fátima Fernandes, lembra que quando Indianara tinha um ano, o irmão é a cunhada foram visitá-los em Joinville. Hoje, Indianara mora em Concórdia, no oeste catarinense. É casada com Cleomar Munaretto, e mãe de Ana Luiza que tem 13 anos, Carla Cristina, 8 anos e Francisco Miguel, 3 anos. “Minha mãe sempre lembrava que a menina deu os primeiros passinhos dentro da nossa casa. Ela sempre esteve em nossa memória. Tentamos descobrir onde ela estava, usando as redes sociais, mas havia várias pessoas com o nome dela e nunca nos responderam. Eu nunca perdi a esperança de encontrar um pedaço do meu irmão e agora encontramos quatro”, comentou Fátima.

No ano 2000, Ana Lúcia Pintro, amiga de Indianara fez mudança de Concórdia para Criciúma. Ela sabia do seu passado trágico e queria localizar os parentes. No entanto, demorou mais vinte anos para que a menina que sentia vítima amadurecesse, deixasse de culpar inconscientemente o pai, compreendesse sem mágoas que os parentes deviam ter explicações e se sentisse preparada para viver este momento. No começo de novembro ela autorizou a busca. Depois que os documentos foram enviados, a amiga descobriu que no Bairro São José tem uma rua com o nome da avó de Indianara. Ela foi até lá e encontrou Patrick Fernandes entrando numa casa. “Perguntei se ele sabia porque a rua se chamava Florisbela. Ela disse que ela era sua vó e comecei a chorar porque eu estava diante do primo da minha amiga. O mais incrível é que depois eu descobri que fui professora dele na escola da Vila Manaus e há 19 anos ele guarda na carteira um cartão com uma mensagem que escrevi. Em compensação, eu ainda guardo um trabalho que ele fez numa aula de contraturno na escola Marcílio Dias de Santhiago”, comentou Ana Lúcia.

O aumento dos casos de coronavírus e a idade tios e tias preocuparam a família. Mas, não cogitaram cancelar o encontro tão esperado. Neste fim de semana, dias 28 e 29, ela esteve em Criciúma e conheceu os tios Valdecir, Vanderlei, Valdemar e Nilton e as tias Vanderir, Maria de Lourdes, Fátima e Maria das Graças. Cada encontro foi uma emoção diferente com algumas revelações surpreendentes. Abraços sem máscara foram inevitáveis e não devem ser punidos porque o encontro foi esperado por mais de 40 anos.

No sábado a família de Maria de Fátima Fernandes, a tia mais nova, recebeu a família de Indianara.  Para evitar aglomeramento em locais fechados, marcaram encontro na Praia da Esplanada, em Jaguaruna. Levaram as crianças para tomar banho de mar, aproveitaram para fazer uma caminhada nas dunas e conhecer as lagoas.

O domingo foi reservado para que Indianara conhecesse a casa onde seu pai nasceu e o local onde o avô tinha a marcenaria, no Bairro Metropol. Um dos tios não foi encontrado no local que morava e foram informados da mudança. Quando pensaram que não seria localizado foi visto na parada de ônibus.

A tia Maria de Lourdes Oliveira foi quem menos conteve as lágrimas. Segurando nas mãos da sobrinha contou que o irmão gostava de passarinhos, de dançar, era divertido, muito calmo e não causava brigas. Comentou sobre o binóculo com uma foto do casamento que a avó sempre olhava, mostrava para as pessoas e lembrava da neta com o desejo de um dia encontrar. “Estou tremendo por dentro desde o dia que eu soube que você tinha sido encontrada. Estou esperando todos os dias, quase não consegui dormir. Nas nossas lembranças você nunca cresceu, sempre foi uma imagem de uma criança de três anos”, comentou segurando sem soltar as mãos da sobrinha.

O pai da Indianara trabalhou como funcionário numa empresa, em Joinville, em 1970. A família contou que a esposa do patrão queria que ele namorasse com sua filha. Apesar de não querer o relacionamento, envolveu-se com a moça e estava sendo pressionado a casar, os preparativos estavam sendo encaminhados, quando ele desistiu e foi embora de Joinville para Cascavel, no Paraná. A mãe de Indianara também ia se casar quando morava em Viadutos, no Rio Grande do Sul. Já tinha o vestido de noiva pronto quando desistiu do casamento. Ela também foi morar em Cascavel. Indianara foi noiva durante três anos, mas o relacionamento acabou.

As histórias do pai, da mãe e da filha tem muitas coincidências. E agora, um tio revelou que a noiva do pai estava grávida quando ele foi embora de Joinville. Portanto, esta história baseada em fatos reais tem muitos capítulos surpreendentes, segredos, encontros e emoções para serem revelados no futuro. É possível que tenha outro final cheio de gratidão, emocionante e feliz.

Ana Lúcia Pintro: Professora Matemática (Criciúma e Cocal do Sul)/Acadêmica de Jornalismo (SATC)

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